quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A Santa Missa na História e na Mística - Paramentando-se.





PARAMENTANDO-SE

1.       O amicto.
2.       A alva.
3.       O cíngulo.
4.       O manípulo;
5.       A estola.
6.       A casula.
7.       A dalmática.

O sacerdote é no altar o substituto e representante de Jesus Cristo. Para apresentar-se dignamente diante de Deus Pai, e da Corte Celeste, deve trazer na alma o ornamento das virtudes daquele que representa.
O sacerdote deverá apresentar-se diante do Pai celeste como um outro Jacó diante de Isaac, vestido das vestes de Esaú, o primogênito. Exultará Deus por aquela fragrância que se desprenderá do coração de seu Filho primogênito e unigênito, oculta debaixo das vestes desde sacerdote. Manda a Igreja, qual outra Rebeca, vestir o sacerdote de vestes não suas, como para atrair sobre si, por esta piedosa fraude, a complacência divina, e tornar o sacrifício incruento da santa Missa aceito a Deus Pai.
Quão pequeno e ao mesmo tempo quão grande é o sacerdote; nada em si, tudo em Jesus! Nisto pensando, vai se paramentando; e a cada paramento que enverga novas ideias lhe ocorrem. Ouçamo-lo!

1.       O amicto.

A primeira peça, que o sacerdote veste, é o amicto. Beija-o; lança-o sobre aos ombros, descansa-o por um momento na cabeça; fixa-o em volta do pescoço; deixa-lhe as extremidades caírem pelas espáduas, e segura-as em seguida com duas longas fitas, em volta dos rins, enquanto diz: “Ponde-me na cabeça, Senhor, o elmo da salvação para que repila os assaltos do demônio”.

*  *  *

O amicto é de origem muito antiga, comum aos clérigos e leigos. Estes, porém, o abandonaram, e Roma o adotou. Era então o amicto desdobrado não pr baixo, mas por cima da alva, como peça litúrgica, e prescreve seu uso a partir do século XI. Ainda o prescreve o rito ambrosiano.
Cinge-se com o amicto o pescoço, para significar segundo Amalário, a moderação que se deve ter no uso da voz, visto que esta se localiza na garganta: “Collum undique cingimos, quia vox in collo est”. Esta é de fato a idéia que expressa ainda hoje o bispo, quando, na ordenação do subdiácono, diz, impondo-lhe o amicto: “Recebe o amicto, símbolo da moderação na voz”.
Se perguntarmos por que descansa o amicto por um momento na cabeça, respondemos que foi uso já antes do século XI cobrir primeiro a cabeça, da qual se tirava só depois de se tem envergado todos os mais paramentos, que o amicto deveria cobrir. Posto que fosse isto de direito exclusivo dos papas a partir do século XII até XVI, estava em uso também entre os simples sacerdotes de alguns lugares, que se cobriam cm ele a cabeça durante certa parte da Missa. Deste uso originou-se o sentido místico dado ao amicto. Chamaram-no de – “galea salutis” – elmo da salvação.
Belo sentido místico tem ele! Bem necessário é ao sacerdote este elmo da salvação. Agarre-se ele a este símbolo da verdadeira esperança cristã!
Elmo de aço, capacete inamolgável, quanto és necessário ao ministro e batalhador da causa de Deus! É justamente contra o sacerdote que o demônio arma e assesta de preferência sua formidável bateria para arrancar-lhe da alma a paz, e do coração a coragem. Protege-o, ó – “galea salutis”.

2.       A alva.

Vestido o amicto, enverga a alva, veste talar qual fora prescrita por Deus aos sacerdotes descendentes de Aarão. É geralmente tecida de linho. Comforma-se assim melhor com as vestes que São João viu em sua visão e descreve: “E foi-lhe dado vestir-se de finíssimo linho, resplandecente e branco” (Apoc 19, 8). A alva representa, no seu lavor como na sua brancura, a justiça e a inocência conquistadas mediante as tribulações padecidas em união com Cristo: “E este linho fino são as virtudes dos Santos” (Apoc 19, 8). “Esses lavaram seus vestidos e os embranqueceram no sangue do Cordeiro” (Apoc 7, 14).
Os ministros da Igreja primitiva andavam sempre vestidos com essa alva, também fora das funções litúrgicas. Os neófitos e os néo-batizados vestiam-se na oitava da pascoela e a depunham no sábado seguinte, que por isso chamava “in albis”, donde vem o nome da veste: “alva”.

*  *  *

Veste veneranda, o sacerdote te compreende! É com júbilo que reza, vestindo-te: “Lavai-me, Senhor, e purificai-me o coração, para que, lavado no sangue do Cordeiro, mereça o gozo das eternas alegrias”.
É o emblema da inocência; símbolo do homem vencedor das paixões desregradas, digno, em sua inocência, que se apresente ante a pureza infinita!
Diz o Senhor: “Quem for vencedor, será vestido de alvas vestes; não serei eu quem lhe apagará o nome do Livro da vida; confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante de seus anjos”.

*  *  *

3. O cíngulo.

Pega depois o cíngulo, corda de certo comprimento que serve para estreitar a alva em volta dos flancos assim que a sua amplitude não impeça no desempenho das suas funções religiosas.
O cíngulo é de origem muito antiga, e com ele cingiam, então, todos os que gozavam ou queriam gozar do bom nome e da boa reputação, pois simbolizava o recato, a continência, a probidade; é por isso prescrito já no primeiro “Ordo Romanus’, como peça que deve fazer parte das vestes eclesiásticas.
E cingindo-se os rins com este cíngulo, reza: “Cingi-me, Senhor, com o cíngulo da pureza, e extingui em mim as chamas da volúpia, para que reine em mim a virtude da continência e da castidade”.
Cíngulo, cinge os rins dos sacerdotes, para que tenham sempre presente a necessidade da mortificação, que lhes assegura e garante a inocência da vida! Sem se mortificar não são e não podem ser Ministros do Crucificado, porque quem quer ser de Cristo crucifica a carne com seus vícios e concupiscências.

3.       O manípulo.

 Enfia, ao depois, no braço esquerdo o manípulo. Sua origem, além de remotíssima, é interessante. Usavam-no os Cônsules Romanos por ocasião da inauguração dos jogos no circo. Depois que o cristianismo entrou em Roma, e criou nela raízes, as estátuas e monumentos cristãos, que simbolizavam o Salvador e a Santíssima Virgem, eram distinguidas das mais pelo manípulo. Logo vê-se nele um sinal de respeito todo peculiar prestado a Jesus e a Maria.
As personagens distintas, em ocasiões de darem ou receberem presentes, levavam o manípulo ricamente trabalhado. As estátuas ou imagens destas personagens são representadas com o manípulo sobre o braço esquerdo. No primeiro “Ordo Romanus”, é prescrito como insígnia de autoridade: tem-no o subdiácono desdobrado sobre o braço direito na ocasião de dirigir a “Schola Cantorum”.
De Moléon (1718) aventou a ideia de que i manípulo teria servido de lenço para enxugar o suor: daí o nome “sudarium”. Dele se serviam os rapazes que, na abadia de Cluni, cantavam no coro; como também durante o mesmo ofício, dele usavam os rapazes de São João de Lyon. Estes seguravam-no entre os dedos da mão esquerda.
Isto parece sugerir a ideia de que a finalidade do manípulo fora sempre qual é hoje a dos lenços. Mas, por serem estes casos esporádicos, parece ser mais aceitável a ideias dos manípulos, em sua origem, eram verdadeiros distintivos de nobreza e autoridade, sendo que consta, com toda a certeza, que eram levados pelos clérigos “in sacris”, e só durante a Missa, desde o século X.
Entretanto, assim uma como outra ideia pode ser interpretada pela oração que a Igreja põe na boca do sacerdote ao introduzir-lhe no braço o manípulo: “Possa eu tornar-me digno, Senhor, de carregar o manípulo das lágrimas e da dor, para que receba na glória o prêmio dde minhas fadigas”.

*  *  *

Manípulo, em ti vêem os sacerdotes um símbolo do zelo que os deve assinalar. Relembras-lhe, sempre que se encaminham ao altar, a resolução tomada no dia de sua ordenação, a de se entregarem e imolarem em prol das almas! Relembra-lhes a autoridade e o poder, que lhes foram conferidos, i. é, de renovar o sacrifício do Calvário. Este reclama deles, todas as manhãs, a abnegação do zelo sacerdotal.
5.  A Estola.
Depois do manípulo vem a vez da de pendurar ao pescoço, peito abaixo, e cruzar sobre o mesmo a estola. Interessante a sua origem! As pessoas de posição e abastadas usavam originariamente um rico tecido de linho pendente do pescoço para com ele enxugar o rosto. Deste pano, chamado orarium (do latim, os= boca, rosto), usavam mais tarde os que falavam em público; por isso tornou-se ele, aos poucos, nas igrejas, o ornamento dos bispos, dos padres e dos diáconos; daí quererem alguns derivar a origem do “orarium”, de “orator” = pregador; daí o costume de subirem ainda hoje, os pregadores ao púlpito com a estola.
É certo que primitivamente caía a estola direito por trás e pela frente. Passou-se depois a cruzá-la sobre o peito e até a firmá-la cruzada debaixo do braço direito.
A Igreja conserva ainda hoje três modos de levar a estola. O bispo observa primeiro, o sacerdote o segundo e o diácono o terceiro.

*  *  *

Pelo que representas e simbolizas, ó estola, te vestem os sacerdotes com amor, enquanto formulam a súplica: “Restituí-me, Senhor, a estola da imortalidade, que perdi com a prevaricação do primeiro pai; e, posto que indigno de me aproximar do vosso santo ministério, mereça gozar das eternas delícias”. És o símbolo da imortalidade! Recordas a glória e a sublimidade dos Mistérios sagrados e divinos que transportam os sacerdotes à glória da majestade de Deus, que os levam ao Sacerdote Eterno, Jesus Cristo!
Mantém-nos, estola, durante o tempo da celebração, nestas alturas, sem o que, não poderemos participar condignamente do sacrifício eterno, do único e imortal Sacerdote, segundo a ordem de Melquisedec!

6.  A Casula.

Vem a vez de envergar a casula (casa pequena, chamada pelos gregos de “planeta”) peça não fixa, mas móvel. A casula primitiva assemelhava-se bastante a uma pequena casa, em que parecia estar encerrado o sacerdote. A sua forma redonda permitia o giro fácil em redor do pescoço.
É a antiga “paenula” derivado de “pannus”, vestimenta de uso universal, vestida em toda parte e por todos.
Pelo fim do século IV tornou-se mais o hábito próprio e cotidiano dos senadores; e aos poucos passou a ser veste exclusiva dos sacerdotes ou ministros do culto divino.
Santo Ambrósio é representado em um mosaico do século V vestido da “paenula”, mosaico que se encontra na capela de São Sátiro em Milão.
Para ter livres as mãos, o sacerdote recolhia a casula dos braços aos ombros; na elevação o diácono soerguia-a por detrás, para que o celebrante fosse mais desimpedido em seus movimentos, ato este, ainda hoje em uso, posto que de nenhuma finalidade prática.
Desde o século XV foi-se-lhe cortando parte do que cobria os braços, assim que veio tomando imperceptivelmente a forma atual, que muito pouco se assemelha àquela primitiva. Só a “gótica” relembra mais de perto o que fora a casula primitiva.
Os diáconos e subdiáconos, hoje como então, só podem envergar a casula em determinadas missas, por exemplo, nas do advento e a quaresma.
Como outrora, os diáconos e subdiáconos, quando em serviços mais direto entre o povo, assim hoje o padre que quer, tira a casula quando prega, para que, segundo o dito antigo: “succintus et expeditus sine multa veste”, possa fazer seus movimentos.
Seja dito de passagem que também os acólitos vestiam antigamente a casula. Com estes conhecimentos, os sacerdotes compreendiam melhor a significação da prece que a Igreja aconselha rezar, enquanto envergam a casula: “Senhor, Vós que dissestes: - O meu jugo é suave e o meu fardo leve, - fazei com que eu possa carregar a fim de obter a vossa graça!”

*  *  *

Casula, os sacerdotes te invocam como o símbolo de caridade, emblema de amor de Deus e do próximo! Imolando eles a Vítima divina, esforçar-se-ão no futuro, mais do que no passado, por tornarem-se santos, a fim de tornar santos os outros.
A santidade é o fruto da caridade; mas a caridade é cumprimento dos preceitos divinos; e estes são o jugo e o fardo que se propõem carregar, quando envergam a casula!
Paramentam-se agora o diácono, o subdiácono e os acólitos.
O diácono e o subdiácono são ministros, servos, ajudantes que servem o sacerdote no altar.
O diaconato e o subdiaconato são as duas Ordens chamadas Maiores para se distinguirem das Menores, que são os ostiariato, leitorato, exorcistato e acolitato.
O diaconato foi considerado desde o princípio como ordem maior, não assim o subdiaconato, que recebeu foros de ordem maior só no século XIII, debaixo do imortal Inocêncio III. São, porém, ambas, ordens muito antigas; delas falam os Padres e lhes exalçam a dignidade, sem todavia especificá-las pelo seu valor intrínseco.
O ofício próprio do diácono é cantar o santo Evangelho e servir o sacerdote no altar. Antigamente, quando os sacerdotes eram pouco numerosos, incumbiam-se os diáconos de outras funções mais importantes, hoje reservados ao sacerdote: eles batizavam, distribuíam a santa comunhão, o que se lhes concede ainda hoje em certos casos raros.
O subdiácono canta a Epístola e serve diretamente ao diácono, indiretamente ao sacerdote, no que se refere ao santo Sacrifício. São estes dois ministros do Sacerdote, em virtude do seu ofício, revestidos de dignidade extraordinária. É a eles que se permite chegar mais perto do Santo dos Santos; são os que representam no altar os fiéis e respondem em nome deles.

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Como disse, paramentam-se: o diácono leva manípulo, mas só durante a santa Missa e no ofício da sexta-feira santa e sábado santo; põe estola, que, ao invés do sacerdote, cruza, não sobre o peito, mas sob o braço direito. Em vez de casula enverga dalmática. Dos mesmos paramentos, menos a estola, se veste o subdiácono.

7. A dalmática.

A dalmática é, com poucas variantes, a tunicela dos antigos romanos, veste comprida, de mangas, antes estreitas que largas, que se sobrepunha à alva; mas não logrou generalizar-se na liturgia.
A dalmática, originária da Dalmácia (donde lhe vem o nome) entrou em uso litúrgico já no  século II do cristianismo. Era mais comprida que a tunicela e muito ampla. As mangas mais largas, porém fechadas, como as da tunicela. Mais tarde se abriram as mangas da dalmática e da tunicela. Eram mangas curtas; pois não ultrapassavam os cotovelos.
Vestia-se então a dalmática por sobre a tunicela, como hoje ainda o faz o bispo ao celebrar pontificalmente. Até os imperadores envergavam este hábito. Como paramento sagrado, a dalmática foi primeiramente reservada aos Bispos. São Silvestre, no século IV, a concedeu também aos diáconos; e não tardou que se tornasse paramento exclusivo deles. Chama-se na liturgia a veste da justiça – “dalmática justitiae”.

8.       A sobrepeliz.

Estes rapazes, vestidos de batina e sobrepeliz, são os ajudantes da Missa ou acólitos. A dignidade e a honra destes se colhem do ofício que exercem.
Os acólitos são anjos, se o sacerdote é Cristo. Devem servir ao celebrante, como os anjos servem a Deus.
Os acólitos são indispensáveis na celebração da santa Missa. O sacerdote que celebre sem ajudante, fora do caso de séria necessidade, peca gravemente.

9.       A capa de asperges.

O acólito deverá ser clérigo. Em sua origem o acolitante era o diácono. Só por falta de diáconos é que passou a qualquer clérigo este ofício e na falta deste a qualquer leigo.
Está claro que só uma pessoa do sexo masculino é permitido ajudar o celebrante no altar.
Uma senhora, em caso de urgente necessidade, poderá, quando muito, responder a celebrante as orações, mas atrás da mesa da comunhão; não lhe sendo nunca permitido servir ao celebrante no altar. É prescrito um acólito nas missas simples, dois nas solenes.
Homens de pouca fé são os que se negam a ajudar à santa Missa.

10.   O barrete.

O barrete estava em uso já no século XII; sua forma atual é do século XVI.

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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O MISTERIO DA ENCARNAÇÃO - CICLO DO NATAL

Aos seguidores: extraímos o presente texto da Edição típica do Missal de 1962, afim de fornecer uma base aos leitores que seguem a Forma Extraordinária da Santa Missa e consequentemente seu calendário litúrgico.


O MISTERIO DA ENCARNAÇÃO
CICLO DO NATAL



I) Tempo do Advento (IºDomingo do Advento- 24 de Dezembro)
2) Tempo do Natal (24 de Dezembro - 13 de Janeiro)
3) Tempo depois da Epifania (14 de Janeiro- Dom. da Septuagésima)



 TEMPO DEPOIS DA EPIFANIA 
 (Desde o dia 14 de Janeiro até o Domingo da Septuagésima) 



I. Exposição dogmática

O Ciclo do Natal é uma espécie de drama em atos, com o fim explícito de demonstrar de três maneiras distintas a encarnação do Verbo e a santificação do homem.
O primeiro ato, que decorre nas quatro semanas do Advento, revela-nos por meio de figuras e de alusões proféticas um Deus que se faz homem, e procura preparar-nos para tomar parte nesse grande mistério.

O segundo, que abrange com o Natal todos os mistérios da Infância do Salvador, faz-nos ver com os nossos olhos e tocar com as nossas mãos o Verbo da vida que estava no seio do Pai e nos apareceu para nos dar o poder de nos encontrarmos em comunhão com o Pai e com o Filho, Jesus Cristo.
O terceiro, que se desenrola no Tempo depois da Epifania e que é o prolongamento do Tempo do Natal, continua a demonstrar e a proclamar a divindade de Cristo. já não são os Anjos do “Glória in excélsis”, nem a estrela dos Magos, nem a voz do Pai e a aparição do Espírito Santo, mas é o próprio Jesus Cristo que fala e opera como Deus. Há de exigir de nós como veremos no ciclo da Páscoa, adesão incondicional do coração e de espírito à doutrina que nos vai anunciar; e para que seja legítima essa exigência e razoável a nossa adesão, quere fazê-Ia preceder de atos e palavras que revelem a sua autoridade divina. Com efeito os Evangelhos do 2°, 3° e 4° domingo. são extratos da série de milagres que S. Mateus nos relata e os do 5° e 6° das parábolas que o mesmo Evangelista refere em abono e prova da divindade messiânica de Jesus. Jesus impera à doença, ao mar, aos ventos; muda a água em vinho, faz prodígios de cura ao longe ou com um simples gesto. É verdadeiramente Deus e atua com modos e poderes que só a Deus convêm. Este período litúrgico, como de resto todo o ciclo do Natal, é, pois, como fica demonstrado, o tempo da Epifania, quer dizer, da manifestação da divindade de Cristo.
As palavras do Senhor são a expressão direta e sensível do pensamento de Deus. O que digo, digo-o como o disse meu Pai. E quem recebe com negligência a palavra do Senhor não é menos culpado que aquele que deixasse cair no chão as sagradas espécies. (S. Cesário de Arles).
O que S. Paulo afirmou da Eucaristia: « O que comer o Corpo do Senhor indignamente come a sua própria condenação " di-lo Jesus da sua palavra sagrada: “Quem não receber a minha palavra, a mesma palavra que anuncio o julgará no último dia”.
Mas Jesus não disse apenas a “verdade”; Jesus, conforme Ele mesmo afirma numa fórmula divinamente concisa, “fez a verdade”. Igual ao Pai por natureza, possuía a doutrina e a virtude do Pai. O Filho não pode fazer nada de si mesmo, mas só o que vir fazer ao Pai, porque tudo o que o Pai faz, fá-lo também o Filho '. E por isso as suas obras e palavras dão prova da sua divindade. As obras que faço em nome do Pai dão testemunho de mim a, Ninguém saberia falar e agir como Jesus, se não fosse Deus.
É o Senhor que o diz : “Se eu não tivesse vindo, nem lhes tivesse falado, não teriam culpa; agora não têm escusa possível; se eu não tivera praticado entre eles obras como nenhum outro praticou, estariam sem pecado; assim não têm escusa do pecado”.
Estas duas frases resumem relativamente a Jesus todo o tempo da Epifania.

E pelo que nos diz respeito é nas epístolas, extraídas do texto da de S. Paulo aos Romanos, que devemos procurar o espírito que informa o pensamento da Igreja nesta época. Deus fiel à promessa não somente convida os Judeus a entrar no reino que o seu Filho governa, mas cheio de misericórdia chama igualmente os Gentios que venham tomar parte neste grande império e que tornando-se nele membros de Jesus Cristo, se amem todos como irmãos. 

 
  2. Exposição histórica

No tempo de Nosso Senhor a Palestina andava dividida em quatro províncias. A oriente do Jordão ficava a Pereia; para ocidente, no sul,
a Judéia; no centro estendia-se a Samaria, e para norte a Galileia. Foi na última que se passaram os acontecimentos que constituem a trama da narrativa evangélica dos domingos da Epifania. Em Caná fez o Senhor o primeiro milagre (2° Domingo). Em Nazaré, na Sinagoga, pregou aquela doutrina que deslumbrava a todos que o ouviam. (Comunhão do 4°, 5° e 6° domingos). Foi ainda na Galileia que o Senhor curou o leproso. (Ev, do 3° domingo). Mas foi sobretudo em Cafarnaum, que fica a um dia de caminho de Nazaré, que Jesus pregou e mais prodígios fez. A seguir ao Sermão da montanha, que a tradição nos aponta como sendo a nordeste de Tiberíades, desceu Jesus à cidade e curou o servo do Centurião (Ev. 4° do 4° domingo). De cima de um barco, à margem do lago que tira o nome de Genesaré, “vale de flores” da larga faixa florida que lhe bordeja as praias pregou Jesus a parábola do semeador (Ev. do 5° domingo). As parábolas de que nos fala o Evangelho do 6° domingo foram pronunciadas mais tarde. Foi depois dum dia de esgotante pregação que o Senhor resolveu passar pela tarde à outra banda do lago, à pequena cidade de Gerza, que ficava na Pereia. O mar de Tiberlades formado pelas águas do Jordâo está sujeito a tempestades frequentes. Foi na passagem que o Senhor serenou as águas revoltas e mostrou mais uma vez aos Apóstolos que era o Filho de Deus.

 

 3. Exposição litúrgica

O Tempo depois da Epifania começa no dia seguinte à oitava de festa e vai, para o Temporal, até à Septuagésima, e para o antoral até à festa da Purificação (2 de Fevereiro).
Enquanto as festas do Natal e da Epifania, que têm dia marcado, dão a este ciclo um carácter de fixidez, o Ciclo da Páscoa, essencialmente tributário da lua pascal, é necessariamente móvel. E é assim que se a Páscoa vier mais cedo (oscila entre 22 de Março e 25 de Abril) O domingo da Septuagésirna, que é o nono antes da Páscoa, recua sobre o tempo da Epifania, reduzindo a um ou dois por vezes os domingos deste tempo. A cor dos paramentos é a verde. É a cor da esperança, da esperança duma colheita abundante, pois o Apóstolo diz que aquele que ara a geira, o faz com a doce esperança dos frutos que hão de vir. E neste tempo, com efeito, o campo da Igreja, semeado com a doutrina e as obras do Senhor, desabrocha na promessa verdejante dos frutos que virão, a seu tempo, lustrar de ouro as courelas. Sendo o eco ainda e o prolongamento do tempo do Natal, este Tempo caracteriza-se de maneira muito particular por uma santa alegria que nos instila na alma a consoladora certeza de termos a proteção dum Deus que é poderoso em palavras e obras.


*Fonte: Missal Cotidiano e Vesperal por DomGaspar Lefebvre, 1962




quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Trecho da homilia do Reverendíssimo Padre José Edílson sobre o uso da Internet nos meios tradicionais.




Trecho da homilia do Reverendíssimo Padre José Edílson, na Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Nova Iguaçu-RJ em 22/01/2012 (com revisão do autor)

“(...) agora temos que ter muito cuidado, cuidado porque isso pode nos levar a uma certa vaidade, sobretudo agora que a missa tradicional está autorizada e permitida pro mundo inteiro, e o primeiro cuidado é o de nós acharmos que somos melhores do que os outros, quanto mais se dá mais será cobrado, nós temos a grande graça de termos a missa na Forma Extraordinária, na forma Tradicional, mas isto não faz com que sejamos melhores que os outros, mas nos faz que tenhamos mais responsabilidade, de sermos mais fiéis a Deus por essa graça, por isso, não se deve considerar o católico dito “progressista” gente de segunda classe...

Um segundo cuidado é o de nos considerarmos tão católicos quanto todos os que são batizados e que estão na comunhão da Igreja, nós não somos mais católicos porque temos a missa tradicional, a missa na forma de Paulo VI, desde que celebrada corretamente, conforme está no missal e nas rubricas, é missa católica, é a missa da Igreja, é válida e é o Sacrifício que se renova no altar... com suas lacunas, que o Papa quer com a graça de Deus ir acertando, ir preenchendo, mas é a missa católica. Se temos essa graça (a Missa na Forma Extraordinária) aproveitemos desse tesouro, nós não vamos menosprezar quem ainda não tem, ou quem adere a missa na forma de Paulo VI, na forma nova...

Um outro perigo que se corre é, usar da Missa na forma tradicional como um meio de contestar a autoridade da Igreja, e isso a gente vê em muitos grupos ditos tradicionalistas e que ficam procurando qualquer frase, qualquer atitude seja de um bispo ou de um padre, ou até do Papa para criticar, e criticam até o próprio magistério do Papa, julgam-se superiores ao Papa na hora de lerem os documentos que são emitidos em Roma, e dizem “isso porque nós somos da missa de São Pio V...”

Quem te deu autoridade pra julgar a Sé de Pedro?

Só Jesus Cristo tem!

Isto é um principio básico e tradicional, e se dizem tradicionalistas... ou seja, eles querem julgar o próprio Papa. Na verdade a Sé de Pedro não pode ser julgada por ninguém, isso é tradicionalíssimo, esse principio está no Direito Canônico e tem toda a história da Igreja por trás... então chega um documento da Santa Sé, já começam a dizer , o Papa aprovou tal coisa, o Papa fez tal coisa... Então espere aí, você está usando a Missa na forma Tradicional como meio de contestar a autoridade e isso não é católico, isso é espírito de seita, isso é o espírito que Lutero tinha, de querer uma igreja de Cristo irreal, invisível, que apenas está nos corações de cada um...

E hoje com a internet usam isso pra espalhar e mover muita gente contra a Igreja, e é por causa desse espírito malévolo e anticatólico que fazem críticas à Administração Apostólica, a Dom Fernando Rifan, e nós padres da Administração Apostólica que temos apenas um objetivo, que é a salvação das almas, e quem convive conosco e vocês convivem conosco já há muitos anos, vocês vêem o cuidado, vêem a preocupação, embora com as nossas limitações e falhas, que não são poucas, mas o cuidado com a salvação das almas...

Porque é para isso que existe a Igreja: para salvar as almas... foi para isso que o Papa criou a Administração Apostólica...

Começa com isto: “ A salvação das almas, aliás, "Animarum bonum" "O bem das almas" é o objetivo da Igreja, a salvação das almas, de modo que esses grupos que fazem essas críticas estão preocupados em se auto promoverem, muitas vezes escondidos no anonimato, escondidos atrás de uma tela de computador, por que não dão as caras, não aparecem frente a frente conosco para discutir? Porque o que querem é ficar atrás de um computador digitando e atacando, sujando, manchando os nomes dos nossos padres e do nosso Bispo... porque simplesmente se acham superiores a própria Igreja, na realidade...

E não estão preocupados com a salvação nem da própria alma... nem da própria alma.

Agora, a Administração Apostólica foi criada justamente com esse objetivo...

Vamos agradecer a Deus por isso, o que nos leva a uma grande responsabilidade, como disse, vamos procurar ser fiéis à Santa Igreja, fiéis a essa graça que Deus nos concede.

Vamos ser fiéis, vamos procurar participar melhor da Santa Missa, convidar mais e mais pessoas para usufruírem dessa grande graça que nós temos aqui, seja aqui em Nova Iguaçu, seja em Volta Redonda, lá na antiga Sé, no Rio, enfim, onde nós estamos espalhados.

Agora, graças a Deus é um desejo do Papa que quer seja no mundo inteiro. Então, sendo fiéis ao Papa, fiéis ao Magistério da Igreja, fiéis à Missa na forma Tradicional, nós vamos seguindo até o dia que Nosso Senhor nos chamar, para a eternidade.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.

+Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.”

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A Santa Missa na História e na Mística (TU ES SACERDOS IN AETERNUM)





TU ES SACERDOS IN AETERNUM

1.       O grande passo para o sacerdócio.
2.       Alter Chistus.
3.       O sacrifício.
4.       O sacrifício da Nova Aliança.
5.       O Santo Sacrifício da Missa.
6.       A eucaristia-sacramento.

1.       O grande passo para o sacerdócio.
O grande passo. Muitos e importante passos tem dado o sacerdote: passos para Deus.
O primeiro transportou-o para além do abismo, que separa o homem não batizado de Deus: foi transformado em templo do Espírito Santo; tornou-se criatura grata a Deus, porque a ele consagrada e por ele santificada: sobre ele pousaram os olhos divinos com agrado e complacência...

*  *  *

E os dias e os anos se sucediam rápidos. Deus olhava-o com agrado. Dois corações se amavam: Jesus e ele se uniram. Jesus deu-se todo a ele na sagrada comunhão. Foi o segundo importante passo para Deus.
Não já pelos padrinhos; mas por si mesmo renunciou no dia da primeira comunhão ao demônio, às suas honras, pompas e glórias. Rejubilaram os céus...

*  *  *

E os dias e os anos se sucediam ainda mais rápidos. Deus usava de deferências amorosas para com ele. Abria-lhe com carinho a estrada dos seus passos. Mandava seu anjo para apartar do caminho as pedras que o podiam fazer tropeçar e lhe magoar os pés.
Mandava sua Mãe para lhe estender a mão nos dias de trevas: houve um tempo de trevas no caminho do Senhor e de luzes no caminho de lúcifer. Foi o tempo em que se lhe abriram os olhos; e a Estrela do mar foi o seu farol norteador. Em dias de fraqueza, mandava seu filho para alimentá-lo do Pão dos fortes. Deus pôs seus olhos amorosos nele...

*  *  *

Saiu forte da luta. Por que se não abalançaria a um novo importante passo para Deus? Fê-lo. União mais íntima não perfazem os laços do amor, do que a que criou uma alma com deus, pela emissão dos santos votos.
Desta vez não só renunciou ao demônio e suas obras, como fez no batismo e na primeira santa comunhão; renunciou, outrossim, ao mundo e à carne, com o deslumbrante cortejo de bens e gozos legítimos que o mundo pode oferecer.
Deus o amou, e ele amou a Deus.
Jesus amou-o, e ele amou a Jesus.
A Virgem amou-o, e ele amou a Virgem.
A Corte celeste amou-o, e ele amou a Corte celeste...
Três grandes e importantes passos esses que deu! Três grandes venturas, na verdade!
Mas o quarto, “O Grande Passo”, vence em importância e em ventura os três.
Com o primeiro travou relações de amizade com Deus; com o segundo estreitou as relações de amizade a ponto de familiarizar-se com Deus; com o terceiro, enfim, passou da familiaridade à consociabilidade. Celebrou núpcias divinas. Esposou o Esposo divino. E seria possível um quarto passo para Deus nesse mundo?
Poder-se-ia idear um consorcio mais íntimo com Deus do que o de esposos?
Deus o pode! E Deus ideou-o. O consórcio que une sacerdote a Deus é tal qual jamais criatura alguma houvera sonhado.
                E ele deu o passo, o quarto grande passo; o passo que o elevou tão perto de Deus, que por pouco, não se tornou um outro Deus.
                É Sacerdote do Altíssimo, Ministro de deus, Levita do Senhor, um “Alter Christus” – um outro Cristo – o Ungido do Senhor.
                Eis o grande passo!

*  *  *

                Ele o confidente íntimo de Deus! Ele chamado por Deus não servo, mas amigo! “Já não vos digo servos, mas amigos” (Jo 15, 15).
                Todo o poder lhe foi dado no céu e na terra. O que ele ligar na terra será ligado no céu; o que ele desligar na terra será desligado no céu.
                Jesus seu amigo! Ele é um outro Cristo; Cristo é um outro ele.
                Identificam-se os seus ideais, as aspirações e os seus poderes sobre Deus pai e sobre os homens, seus irmãos. Manda a Deus que desça sobre o altar do sacrifício; e Deus, obedecendo desce.

*  *  *

Oh! O grande passo! Ó passo venturoso!
Já está dado. O caráter sacerdotal está indelevelmente impresso em sua alma!
“Tu es sacerdos in aeternum”.
Passo, em verdade, grande e de grandes responsabilidades!
Mas “alea jacta est” – o dado está lançado. – Já não há de recuar. E por que haveria de recuar? Amedrontam-no acaso as responsabilidades? Assoberbam-no as dificuldades? É-lhe nimiamente pesada a cruz?
Mas não se tem assentado à direita de Jesus, só quando se persuadiu que poderia e saberia beber do cálice por que bebeu Jesus?
E não se persuadiu disso só confiado naquele que sabe e pode e quer confortá-lo? Tudo pode naquele que o conforta!

2. Alter Christus.
Um outro Cristo! Um outro ungido do Senhor! Um outro Eleito de Deus – Já não vos direi servos, mas amigos meus! – Um outro Mediador, enfim, entre Deus e o homem! – É a escada de Jacob, por que descem e sobem os anjos da Graça Divina!
Chama-se Sacerdote do Altíssimo! – Tu sacerdos in aeternum! – É quem dispensa as coisas sagradas; quem se apresenta como intermediário entre Deus e os homens: entre Deus, de quem recebe, e os homens a quem distribui; entre Deus a quem oferece as dádivas, e os homens, que o incubem da tarefa de as dispensar a eles.
Chama-se um outro Cristo; porque é em terra um seu verdadeiro substituto. Substitui a Cristo como verdadeiro Mediador.
Se São Paulo diz que há um único e verdadeiro Mediador que é Cristo, o qual se entregou a si mesmo à morte para resgatar o gênero humano e satisfazer ao Pai pelos homens, diz com isso que Cristo é, outrossim, o único Sacerdote. E único Sacerdote Ele é na verdade! Mas, doutro lado, ensina a fé que, como Ministro do Altar, é o padre verdadeiramente mediador, verdadeiramente sacerdote. Como se entenderá isto? Do modo mais simples. Considerado como pessoa privada, não é senão um homem como os mais; mas, como Ministro de Deus, representa Jesus Cristo mesmo, de quem recebe todo o poder, autoridade e eficácia de sua mediação.
Duplo poder lhe é conferido: um que exerce sobre o Corpo e sangue de Jesus Cristo; outro que exerce sobre o seu corpo místico, que é a Igreja ou a reunião dos fiéis. O primeiro torna-o um sacrificador; o segundo, um padre, um doutor, um médico um juiz. Mas tudo isto, todas estas funções exerce-as só em nome de Cristo.
Cristo, pois, é o único Mediador entre deus e os homens, e se a fé diz que o Padre o é também, só o é porque Cristo está nele. Eis por que é um – Alter Christus! – um outro Cristo no pleno rigor da palavra!

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Agora, sim, nos damos conta da solenidade das cerimônias litúrgicas com que o Pontífice do Senhor consagrou Sacerdote ao neo-presbítero!
Escolheu ele a hora mais solene, a do santo sacrifício da Missa. Antes de o ordenar, interrogou a todos presentes, mais uma vez, depois de o haver feito já antes com extremo cuidado, se eles o consideravam digno, tanto quanto o possa ser uma criatura, para receber a ordem sacerdotal.
Não havendo quem se lhe opunha, o Consagrante dirige-se ao Consagrado. Relembra-lhe, com força e unção, a grandeza dos deveres, de que o sacerdote assume a responsabilidade. Invoca a adorável Trindade, Maria, Mãe de Deus, os Apóstolos, os Mártires, os confessores, as Virgens, toda a corte celeste, para que lhe venham em auxílio, dizendo: “Senhor, dignai-vos abençoar, santificar e consagrar o vosso eleito!”
Avança o consagrado para o Altar. O Bispo, em silêncio, põe-lhe sobre a cabeça as mãos. Fazem depois o mesmo os sacerdotes presentes ao ato, um após o outro; e estendem sobre ele a mão direita. Momento solene! Momento em que se imprime na alma do novel levita o caráter indelével de sacerdote; é a graça sacramental, que o Bispo lhe obtém pela recitação das palavras do sacramento da Ordem! É agora que o Espírito do Senhor vem repousar sobre sua cabeça. Afigura-se-lhe, então, que se abrem os céus, com outrora se abriram sobre as águas do Jordão, e que se houve a voz do Pai a dar testemunho deste seu novo Cristo: “Este é meu filho amado, em quem pus as minhas complacências”. E, de feito, Jesus é quem neste momento renasceu nele! Apraz a cristo perpetuar sua estadia entre os homens, nascendo sempre de novo em cada neo-sacerdote.
Sente-se o recém-ordenado sacerdote do Altíssimo – Tu es sacerdos in aeternum. – Por tal o reconhece o Consagrante; passa por isso a revesti-lo dos hábitos sacerdotais: cruza-lhe a estola por sobre o peito, símbolo comovente da cruz que pesou nos ombros do Sacerdote eterno, Jesus Cristo, no dia do seu sacrifício; põe-lhe a casula, símbolo do amor; unge-lhe as palmas das mãos com o óleo dos catecúmenos, em forma transversal, do polegar de uma mão ao índice de outra, dizendo: “Senhor, dignais-Vos consagrar e santificar estas mãos com a unção e com a nossa benção, para que tudo quanto elas abençoarem seja abençoado, e tudo quanto consagrarem seja consagrado e santificado em nome de N.S.J.C.”.
Passa, em seguida, a entregar-lhe os instrumentos. Faz-lhe tocar o cálice que contém água e vinho, e a patena com a hóstia dizendo: “Recebe o poder de oferecer o sacrifício a Deus; e de celebrar a Missa pelos vivos e defuntos, em nome do Senhor”.
E passa imediatamente, acompanhando o Bispo, a celebrar a sua primeira santa Missa. Depois da comunhão, impõe-lhe o consagrante novamente a mão na cabeça, dizendo: “Recebe o Espírito Santo: a quem perdoardes os pecados, ser-lhe-ão perdoados; a quem os retiveres, ser-lhe-ão retidos.” Poder inaudito! E sente objetar-lhe, como outrora Jesus foi aparteado pelos escribas: “Mas quem pode perdoar os peados, senão Deus?” (Mac 2, 7). De pleno acordo! É preciso ser Deus para poder absolver um pecador; mas por isso mesmo é chamado na sagrada Escritura: “Vós sois deuses”.
É o próprio Deus que assim apelida aos Levitas da Antiga Lei, em vista do poder extraordinário de que foram revestidos.
Na verdade, é um Deus quanto ao poder de perdoar os pecados ou de os reter; porque está nele o poder de Jesus, o poder de Deus. – É um outro Cristo. – É o depositário do divino poder, mediador entre deus e os homens, imagem visível do Grande Pastor de Ovelhas.

*  *  *

Oh! Não fora a graça da fé, meu Deus, nunca acreditaria em tal! Não fora a graça do Vosso amor, nunca homem algum se abalançara a tanto! O sacerdote um outro Cristo?! Um Deus! Compreendo que vós, Jesus, mandeis ao homem que seja perfeito como vosso Pai no céu é perfeito; mandais que aprenda de vós a humildade e vos imite em tudo, porque sois o Deus feito homem e o neo-presbítero, um homem feito Deus: - Alter Christus!

3.  O Sacrifício.
É chegado o momento soleníssimo, em que o neo-sacerdote sobe ao altar para oferecer o sacrossanto sacrifício da cruz.
Que é um sacrifício? O sacrifício verdadeiro e propriamente dito, segundo no-lo define o próprio Espírito Santo pela boca de Moisés e São Paulo, é a oblação de coisa sensível com a sua destruição quer parcial, quer total, quer seja física (como se dá com o holocausto) quer mística, (como se dá com a libação e efusão de vinho ou água) efetuada por um ministro legítimo e feita só a Deus, com o fim de manifestar os sentimentos internos, com que o homem deve reconhecer o seu supremo domínio. Desde que há memória do homem decaído, não faltaram sacrifícios entre os povos.
Passando pelos mais, limito-me a apontar o de Melquisedec, narrado nas Escrituras, e que tem, por isso mesmo, o testemunho infalível do Espírito Santo, e que é muito próprio para o nosso caso.
Melquisedec ofereceu a Deus o sacrifício de pão e vinho, símbolo perfeitíssimo do sacrifício da Nova Aliança, em que o pão, pelo poder das palavras da consagração, se transubstancia em Corpo de Cristo, e o vinho em Sangue de Cristo. Recordo ainda o sacrifício da lei mosaica, que é considerado debaixo de quatro pontos de vista, devido aos quatro diversos fins: O sacrifício latrêutico, que visa direta e exclusivamente, segundo a intenção do sacrificante, o fim de reconhecer por ele o supremo e inalienável domínio de Deus sobre tudo o que existe. Por isso, neste sacrifício há destruição total da oferta ou vítima, há destruição física; e é por isso dito holocausto. – O sacrifício eucarístico, que visa diretamente o fim de render graças a Deus pelos favores e benefícios outorgados; e chama-se “hóstia pacífica”. – O impetratório, que visa a obtenção de novas graças e novos benefícios. – O propiciatório, que visa aplacar a Deus, e por isso é chamado também de satisfatório, cujo escopo é oferecer a Deus vítimas em expiação dos pecados, em satisfação das penas devidas pelos pecados, e chama-se “hóstia pro delicto” e “hóstia pro peccatis”.
Do dito se colhe que o sacrifício tem como fim reconhecer a perfeição infinita do ser Divino e do seu soberano domínio sobre quanto veio à existência por seu infinito poder. O reconhecimento do Ser perfeitíssimo, que é Deus, é uma Eucaristia ou agradecimento no pleno rigor da significação do termo; ela abrange em sua verdadeira acepção as idéias da adoração, em virtude da qual o homem se aniquila na presença da divina Majestade; da gratidão, que leva o homem a exaltar os benefícios de Deus; da imperfeição, que induz o homem a implorar as graças de que necessita; da expiação, que faz com que se obtenha a supressão da justa ira do Senhor, prestes a fulminar sobre o homem o seu tremendo castigo.
Estes são e devem ser os quatro fins que visa todo e qualquer sacrifício que se oferece à Divindade, os quais se podem reunir em um púnico, que é o de unir intimamente o homem a Deus; e chama-se a eucaristia-sacrifício.

4. O sacrifício da Nova Aliança.
Exposta a noção geral do sacrifício, qual é entendido por todas as religiões verdadeiras e falsas, releva acentuar mais a significação do sacrifício da Nova Lei, o sacrifício da religião revelada, sacrifício da religião cristã, o único aceitável a Deus, sendo o único prescrito por ele próprio. Abrogando Deus a religião mosaica, aboliu o sacrifício que nela fora ordenado; e fundando uma religião diversa da de Moisés, estabeleceu um sacrifício diferente do de Moisés.
Cristo, o Filho de Deus, veio ao mundo para fazer a vontade do Pai. Depois de haver aperfeiçoado a lei de Moisés e modificando a religião judaica, instituiu um sacrifício digno da lei e da religião divinamente acabadas: é o sacrifício de um homem-Deus.
A natureza humana, unida hipostaticamente à Pessoa divina, isto é, ao verbo, segunda Pessoa da santíssima Trindade, não pratica ação que não se deva atribuir à Pessoa; ora, em Jesus há uma única Pessoa, e esta é divina; Jesus é Deus, e o que Deus faz é ato de valor infinito e, se bem que o sacrifício seja de natureza humana, todavia o sacrifício de Jesus é ação que se deve atribuir à Pessoa divina, ao Verbo; mas a ação do Verbo é infinita, logo, infinito é o sacrifício; logo, o sacrifício do homem-Deus é de valor infinito. Portanto, de todos os sacrifícios é o sacrifício de cristo, o Homem-Deus, que de um modo mais perfeito preenche os quatro fins acima expostos; porque, considerada a dignidade da vítima imolada em holocausto, que vítima houve jamais ou haverá que supere em dignidade ou excelência a Vítima divina, Jesus Cristo? O sacrifício de Cristo, embora um único, valeu infinitamente mais do que os milhões e bilhões de vítimas puramente humanas ou irracionais de todos os tempos.
Esta é a verdade que a Igreja definiu nos Concílios Efesino e Tridentino, quando disse que Cristo se ofereceu a Deus Pai sobre o altar da cruz, para lá efetuar a nossa eterna redenção.
Sim, a morte de Cristo na cruz foi um verdadeiro sacrifício. Em Cristo temos o sacerdote constituído por Deus desde toda a eternidade e por isso legítimo. Em Cristo temos a vítima sensível, verdadeira e realmente imolada na cruz. Temos portanto, os dois requisitos essenciais para todo o sacrifício: o sacerdote e a vítima. (N.B. Não é requisito essencial que seja o sacerdote quem mate a vítima, mas sim quem a ofereça). Em Cristo temos outrossim perfeitamente verificados os quatro fins do sacrifício: Cristo por sua morte na cruz reconhece o supremo domínio de Deus, aplaca a divina majestade, expia as penas dos pecados, impetra novas bênçãos do alto e rende graças a Deus pelos benefícios recebidos.

5. O Santo Sacrifício da Missa.
Enquanto houver homens sobre a terra é mister que haja sacrifícios; e isto por força dos fins que visa toda sacrifício: o reconhecimento da soberania absoluta de Deus, o rendimento de graças ao Senhor pelos benefícios recebidos, a impetração de novos favores divinos e o aplacamento da ira divina, ofendida pelos pecados, e a satisfação das penas merecidas.
Ora, que outro sacrifício poderia ser mais grato a Deus e preencher de modo mais perfeito a finalidade do sacrifício do que o sacrifício do Homem-Deus?
Eis aqui por que, fundando Cristo sua religião sobre a terra, lhe deu um novo sacrifício, que é a continuação do sacrifício oferecido outrora, cruentamente, sobre o Calvário: o sacrifício da Missa!
O sacrifício da Missa é um verdadeiro sacrifício; porque é, primeiro, um ato público efetuado segundo um rito determinado e por ministros para isso especificamente deputados. Este rito e estes ministros foram instituídos por Deus mesmo, que aboliu o rito e os mistérios da Lei Antiga. Por isto, de todos os sacrifícios, é o da santa Missa o único aceitável a Deus, porquanto é ele a renovação e a aplicação daquele do Calvário, do qual tem a plena eficácia.
É, em segundo lugar, verdadeiro sacrifício, porque se oferece na Missa uma coisa sensível, que é o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, debaixo das espécies de pão e vinho, o mesmo Corpo e o mesmo Sangue que um dia ficou imolado no alto do Calvário, oferecido pelo próprio Sumo Sacerdote, Jesus Cristo. Se há uma diferença entre os dois, esta consiste em que o Sacrifício do Calvário foi cruento; em que no Calvário Cristo se ofereceu pessoalmente sem ministros, enquanto nos nossos altares se oferece mediante o ministério dos sacerdotes; em que no Calvário o sacrifício nos mereceu a redenção, e nos nossos altares, a aplicação dos frutos dela.
Portanto, não há motivo algum para negar que o Sacrifício da Missa seja verdadeiro sacrifício: temos nela o sacerdote e temos a vítima.

6.       A Eucaristia – Sacramento.
A respeito do sacrifício seria incompleto se passássemos em silêncio um elemento, não digo essencial, mais integral de todo o sacrifício: A Eucaristia-Sacramento.
Parece provado que a todos os sacrifícios, assim pagãos como judaicos, estava anexa a ideia de que, para ser completo o sacrifício, era mister unir-se à divindade com a participação efetiva e real das vítimas: isto é, com a comunhão, como diríamos hoje, em que se come da vítima.
Fosse como fosse a ideia dos pagãos e judeus a respeito da comunhão, o certo é que o sacrifício da Missa, não só é Eucaristia-Sacrifício, senão também Eucaristia-sacramento. Sim, no sacrifício da Missa a criatura não só se dá inteiramente a Deus em holocausto, mas é por Deus convidada a assentar-se à sua mesa celeste, sobre a qual ele oferece a comer e a beber aquela mesma vítima, a carne e o sangue preciosíssimos de Jesus.
Ó alimento divinizado pela consagração! Alimento divino! O Corpo e o Sangue unidos à alma e à divindade de nosso Senhor Jesus Cristo! Alimento único; pois só ele tem a virtude de operar a fusão de Deus com o homem, união que proporciona à criatura bens inúmeros, que a transforma e a torna sempre mais semelhante ao seu Criador.
Que realidade consoladora! Pela Eucaristia-Sacramento ou pela comunhão que devo fazer, sempre que celebro, uno-me de modo admirável a Deus; nutro-me com a substância divina; sou de certa maneira divinizado; preparo-me insensivelmente para a páscoa da vida eterna.

*  *  *

Quer-me agora parecer que não é necessário insistir ainda no valor do santo sacrifício da Missa. É mais que evidente. Aqui temos um Deus que se imola, um Deus que é imolado. Que cúmulo de mistérios!
Entretanto, importa relembrar que o sacrifício da Missa é de valor infinito, para que ninguém se escuse de não ter encontrado o suficiente para si. É um mar inexaurível de graças e benefícios. Só quem bebe deste mar agrada a Deus; só quem assiste à Missa presta a Deus o sacrifício por ele aceito. Afora o sacrifício da Missa, nenhum outro pode ser agradável a Deus e proveitoso ao homem e tão proveitoso, que santos do céu participam da sua glória, as almas do purgatório e os vivos da terra gozam superabundantemente dos seus benefícios. É que o sacrifício da Missa constitui o único holocausto verdadeiramente digno do Senhor, em que se sacrifica o Cristo sempre vivo para interceder em nosso favor. Aqui, como sobre a cruz, o Cristo se constitui o vínculo vivo que nos une a deus.
No santo sacrifício da Missa temos o ato em volta do qual gravita e dele se irradia o próprio sacrifício da Redenção. Sim, na santa Missa, aquele mesmo sacrifício, oferecido um dia sobre o Calvário, assume a condição como de coisa que ocupa a circunferência, como de um satélite gravitando em volta do sol, como de uma fonte viva que deságua no oceano. A santa Missa é o entro, é o sol e é o oceano onde se concentra o próprio sacrifício do Calvário que é eterno, e ao mesmo tempo perpetuado no tempo, no céu perante Deus e na terra entre os homens; é o mistério da consumação de todos os desígnios de Deus, realizado um dia e renovado por todos os séculos até ao fim do mundo.

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É tendo presente o exposto que o sacerdote deve oferecer o tremendo ato religioso. Oxalá se aproximasse sempre para o futuro da ara sagrada do Senhor com estas disposições de alma que o dominam ao presente!
Quem dera, pudesse comunicar e, comunicadas, conservar estas mesmas santas e invejáveis disposições nas almas de todos os assistentes ao santo e inefável sacrifício da Missa! Quisera, sim, que todos os cristãos se persuadissem de vez por todas ser o santo sacrifício da Missa o ato de religião mais necessário!



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Introdução.