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terça-feira, 24 de abril de 2012

AO PÉ DO ALTAR




AO PÉ DO ALTAR


A santa Missa em geral;
A divisão da Santa Missa;


A Santa Missa em geral.
Grandes preparativos, na verdade, para o ato religioso que se está para começar!
O aparato até aqui apontado e descrito visa só e unicamente a santa Missa. São preparativos remotos, sim, mas intimamente conexos com o ato central da santa Missa. Este ato central, augusto, sublime e cheio de mistérios, é o da consagração; ato em que o pão e o vinho se transubstanciam no Corpo e Sangue de Jesus cristo. É o ato central em torno do qual gravitam a bem dizer os outros atos, desde os mais remotos aos mais próximos.
Descritos e explanados os atos remotos, resta descrever e explanar os próximos. Antes, porém, de entrar nos particulares, convém dar o conceito da Missa, a sua história, e suas partes principais.

*   *   *

Que se entende por Missa?
Se é só questão de nome, Missa é o que entre os gregos se chama “mistagogia”, que quer dizer, iniciação nos mistérios de uma religião; Hierurgia, isto é, ação sagrada, santa; e liturgia, isto é, rito.
Missa é o que entre os latinos se chama sacrifício, oblação, agenda, ação por excelência, fração dos pães, oferta e comunhão.
Tudo isso significa Missa e tudo se qualifica pelo nome “Missa”.
Mas donde veio semelhante nome a tão augusta ação, de modo a dominar todos os mais que são em si muito mais expressivos e próprios para dar-nos dela uma ideia mais exata?
Veio do fato seguinte: Os catecúmenos eram despedidos da assembleia dos fiéis antes de se iniciarem os santos mistérios. Dizia-se-lhes então: “Ite, Missa est!” – Ide-vos, é a hora de partir! – Outros diziam: - Ide-vos, estais despachados!
Não se perca pela expressão. O pensamento é assaz claro: “Missa” vem do verbo latino “mittere” que quer dizer ação de enviar, despachar, etc., donde a palavra “misso” – envio, despacho, etc.
E porque de ordinário, seguiam à despedida dos catecúmenos os sagrados mistérios, passou-se desde logo a denominar “Missa” o conjunto de todos esses mistérios.
A Igreja continua ainda hoje, na liturgia da Missa, a usar o “Ite, missa est”, com a única diferença de que agora não já despede catecúmenos, a quem era vedado assistir ao santo sacrifício, mas fiéis que acabam de assistir a ele. O “Ite, missa est’ de hoje declara que a Missa acabou, ao passo que o de outrora dizia que a Missa ia começar.
Restaria expender agora o conceito de Missa quanto à sua essência; mas bastará recorda-lo, visto não diferenciar em sua substancia do que se disse acima a respeito do “Sacrifício da Nova Aliança”. Sempre, pois, que ouvimos falar de Missa, devemos, como cristãos católicos, crer o que dela diz o Concílio Tridentino contra os hereges de Lutero, Calvino, etc. quando assim a define:
“A Missa é o sacrifício da Nova Lei, em que Cristo é oferecido e incruentamente imolado, debaixo das espécies de pão e vinho, pelo ministério de um homem, em prol da Igreja, a fim de reconhecer o supremo domínio de Deus e nos aplicar as satisfações (pelos pecados) e os merecimentos de sua paixão”.
A santa Missa é, na verdade, como já acima dissemos, um verdadeiro sacrifício: nela encontram-se os dois elementos essenciais do sacrifício: a oblação e a imolação, como também o elemento integral: a comunhão.
Que isto seja assim, bem se vê pela definição do Concílio Tridentinno, que, anatematizando os inovadores do século XVI, se exprime, a respeito, desta forma:
“Se alguém disser que na Missa não se oferece a Deus um verdadeiro e próprio sacrifício, ou que o que se oferece não é mais que o Cristo que se nos dá a nós em alimento, seja anátema” (Sess. X, XII, can. 1).

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Sabendo o que é a santa Missa, pode-se passar a ver em traços rápidos a sua história, isto é, o seu desenvolvimento quanto às preces e ritos.
Se voltarmos os olhos para a primeira santa Missa, celebrada pelo seu próprio Instituidor, Jesus Cristo, naquela memorável hora da última ceia; e se lermos o que São João Evangelista escreve sobre as cerimônias e orações, nos convenceremos facilmente de que a primeira Santa Missa continha em botão o que em séculos posteriores foi desabrochando nesta formosa flor de sedutoras e impressionantes cerimônias litúrgicas e sublimes e divinas orações rituais.
A santa Missa foi sempre a mesma desde a sua origem até aos nossos tempos, se a considerarmos em sua essência; mas assumiu disposições externas diversas através dos séculos, vindo a dar nas que tem hoje.
Sendo diversos os ritos, cerimônias e composição das orações, sobretudo na Igreja Oriental e Ocidental, e sendo que a nós mais interessam as da Igreja Ocidental, a que pertencemos, nestas nos demoraremos um pouco. 

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A flor da liturgia da santa Missa se ostenta formosa e impressionante segundo o rito Romano, que é um dos ritos ocidentais. 

(N. B. O rito Oriental tem a liturgia armênia, que supera em majestade e esplendor a liturgia romana. São dignos de nota os ritos antigos, que constituem a Liturgia de S. Jacob, de S. Cirilo de Jerusalém, de S. Basílio e de S. João Crisóstomo).

Outros houve que estiveram em uso na Igreja Ocidental, como o rito galicano (a antiga liturgia da França), o rito milanês ou liturgia ambrosiana e o rito mozarábico na Espanha.
(N. B. Liturgia seguida antigamente na Espanha pelos Mozarábicos, cristãos vencidos e mesclados com mouros desde o século VIII, chamados também Mistarábicos).
Passemos a historiar a origem e a evolução do rito romano antigo, para depois entrar a estudar mais de perto o rito romano novo fixado e prescrito definitivamente para todo o Ocidente pelo Sumo Pontífice, o Papa S. Pio V, no século XVI. 

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O cerimonial litúrgico antigo era um e o mesmo para todos os celebrantes (papas, bispos e sacerdotes), existindo a única diferença de que os simples sacerdotes não podiam cantar o "Gloria in excelsis".
Segundo este cerimonial a Missa era celebrada só cantando, e por isso não podia haver numa e mesma igreja duas ou mais Missas ao mesmo tempo.
Com o decorrer dos tempos, porém, cresceu o número de sacerdotes, cresceu o número dos exigentes de Missas, cresceu o número de igrejas, capelas, santuários e altares; e para se poder satisfazer a tudo e a todos, introduziu-se no século VI a Missa lida, costume que se foi generalizando de forma que as Missas cantadas se celebravam só no altar-mor ou principal, onde os diáconos e subdiáconos tinham o ensejo de desempenhar o seu ofício.
Mas nem por isso foram suprimidos os elementos que constituem a Missa solene na Missa lida ou simples, com exceção de uns poucos que se referem à incensação. Assim, pelo que diz respeito às cerimônias rituais, encontramos realmente uma inteira redução na missa lida ou simples; mas, pelo que diz respeito às palavras, nela as encontramos todas. Se há nestas alguma diferença, consiste só nisso: que as palavras ou orações cantadas na Missa solene são proferidas em voz alta na Missa simples.
Há ainda outro importante fator que induziu a que se celebrassem Missas simples: é que até ao sé- culo V as santas Missas eram celebradas só nos domingos; na segunda metade do século quinto o papa S. Leão (460) permitiu a celebração da santa Missa também nas quartas e sextas-feiras das "Quatro Têmporas” na segunda metade do século VIII, o papa S. Gregórío II (731) estendeu esta permissão para todos os dias da Quaresma, com exceção das quintas-feiras.
Pouco depois passou-se a honrar de modo mais público a Virgem, Mãe de Deus, para o que se escolheu de preferência o dia de sábado; e como a santa Missa é o ato por excelência, a fim de honrar e venerar a Mãe de Deus, os santos e devotos obtiveram dos Sumos Pontífices a licença de celebrar todos os sábados do ano.
Finalmente, já por um, já por outro motivo, honraram-se dentro em breve todos os dias da semana com a oblação do santo sacrifício.
O único dia do ano em que é vedada a celebração da santa Missa, e isto ainda hoje, é o dia da sexta-feira santa. Supre-se todavia com a Missa chamada dos Pressantificados. (N. B. Chama-se Missa dos pressantificados a que o sacerdote oferece no altar e comunga com as espécies eucarísticas consagradas na vigília; no dia mesmo não se faz a consagração).
Não satisfeita a .Igreja com esta graça, concedeu a celebração da santa Missa mesmo duas e mais vezes ao dia a cada sacerdote, o que é ainda hoje permitido a alguns sacerdotes em caso de necessidade e com licença prévia do bispo, como seja o binar (dizer duas missas) em festas de guarda, na falta de sacerdotes.
Parece ter sido de uso comum no século IX e seguintes que um só mesmo sacerdote celebrasse mais Missas ao dia. Certo é que o papa S. Leão (795-816) oferecia às vezes sete e mais vezes o santo sacrifício cada dia. E quem não diria provir deste tempo o costume que, a partir de 10- VIII-1915, vigora em toda a Igreja Ocidental de os padres celebrarem ainda hoje três santas Missas na festa do santo Natal e no dia dos Finados?

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Por tudo isto se entende perfeitamente a redução do aparato exterior na celebração da santa Missa; donde se originou a Missa rezada (simples), sem todavia eliminar a cantada, (solene). Diga-se desde já, que é nosso intento descrever logo abaixo a santa Missa solene, visto encontrarem-se nesta os elementos todos que estão numa Missa simples.
Este desenvolvimento tão favorável e a gosto dos sacerdotes teve outra consequência: a de os sacerdotes poderem rezar suas Missas independentemente dos respetivos bispos, porquanto fora primitivamente uso universal que os sacerdotes rezassem a santa Missa juntamente com o próprio bispo, (concelebratío). da mesma forma como hoje os neo-presbíteros, no dia da ordenação, rezam a sua primeira Missa com o bispo consagrante.
Este modo de rezar a santa Missa está ainda em prática na Igreja Oriental.

Baste o dito sobre o desenvolvimento geral da ação externa da santa Missa; porque pelo que diz respeito ao seu desenvolvimento particular assim da ação externa como interna, dir-se-á de passagem e "occasíone data" logo mais, quando descrevermos a santa Missa solene segundo o novo rito romano. 

Passemos agora à divisão da santa Missa. 




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TU ES SACERDOS IN AETERNUM


PARAMENTANDO-SE  

AS CORES DOS PARAMENTOS.

COISAS DO CULTO DIVINO


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

COISAS DO CULTO DIVINO




COISAS DO CULTO DIVINO

1       A Casa de Deus.
2       Na Casa de Deus.
3      A pia da água benta.
4     A aspersão – Caldeirinha com o hissope.
5      O cantochão ou gregoriano (cantoria).
6       O incenso (naveta).
7     O turíbulo.
8      O altar (fixo, móvel e portátil).
9     O Tabernáculo.
10.   As toalhas.
11.   O Corporal com a Bursa.
12.   A pala.
13.   O purificatório.
14.   O manustérgio.
15.   O cálice com o véu.
16.   A vela com Castiçal.


1.       A Casa de Deus.

Igreja é o termo tomado da língua grega; significa assembleia, reunião de fiéis. É neste sentido que se reza: “Creio na Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana”.
Esta denominação passou das assembleias aos lugares em que se realizavam tais reuniões. É neste sentido que aqui tomamos a igreja: consideramos e contemplamos a Casa de Deus, este edifício, em que se reúne o povo cristão, em que se rende culto devido a Deus; pois que nela habita Deus.
Desde os primeiros tempos de sua existência o cristianismo se empenhou seriamente em como aparelharia uma morada digna do grande Deus, que se compraz em viver entre homens.
Do começo usou edifícios já existentes, moradas de particulares; estas íam sendo acomodadas às necessidades do culto litúrgico; e porque, comumente, de gente rica, eram essas moradas amplas, de forma que já no principio do século III possuía o cristianismo edifícios esplêndidos e grandiosos, chamados “Domus Ecclesiae”, casas de reunião, com átrios e amplos abrigos.
Bem cedo se passou a cognominá-las basílicas, sendo que estas eram a parte principal dos edifícios. Passada a era das perseguições, tornaram-se as basílicas monumentos notáveis, em que a arte atingiu o apogeu nas múltiplas manifestações do espírito humano, criando incomparáveis obras primas.
A ábside da igreja é geralmente voltada para o oriente, donde veio Jesus Cristo e onde se acha seu glorioso sepulcro. O cruzeiro, que corre norte-sul, simboliza a cruz, em que Cristo deu a vida.
Os sinos das igrejas, quanto se pôde averiguar, remontam ao século VI. Até esta época usavam-se as trombetas ou as matracas para convocar o povo fiel.
A igreja é a Casa de Deus e do cristão. Nela os fiéis adoram, agradecem,  expiam e imploram de Deus o quanto lhes é mister.
É ainda, e de modo particular, a casa do Sacerdote. Nela o Sacerdote imola, perdoa, instrui, e reza. Lugar, em verdade, santíssimo em que o Sacerdote implora e roga pelos delitos e pecados do povo!
Mas todas as prerrogativas e toda a dignidade da igreja provêm de ser ela a Casa de Deus. A liturgia ou as cerimônias religiosas que se praticam, já na construção, já na consagração ou dedicação das igrejas, interpretam admiravelmente estes pensamentos.
Quando o bispo ou seu delegado coloca a primeira pedra de uma igreja e impetra sobre ela as bênçãos do Senhor, a liturgia relembra de modo especial que esta pedra é a imagem de Jesus Cristo, a pedra angular e irremovível que sustenta o edifício da grande Casa de Deus ou Família de Deus, a Igreja.
Chegado o momento da consagração do novo templo, o bispo o faz ostentando toda a riqueza e majestade dos ritos da liturgia, repassados de entusiasmo e alegria; é que se consagra a morada para o Hóspede divino dos nossos tabernáculos.
Inicia-se a consagração com longas purificações. Os muros externos são aspergidos com água benta, contornados três vezes.
A igreja abre suas portas ao Rei da glória, ao Deus forte e onipotente. O consagrante purifica as paredes internas e externas três vezes, bem como o soalho do templo, do norte ao sul e de leste a oeste. Introduzem-se então as relíquias dos santos que hão de constituir a corte do Deus dos céus. Estas passam pela porta que o bispo ungiu com o sagrado crisma; e o sepulcro do altar consagrado as recebe para sempre.
Depois, ungem-se doze colunas, caso as houver, aliás doze pontos das paredes com o óleo santo, para simbolizar os doze apóstolos, sustentáculos da nossa fé.
Note-se porém, que tal consagração só se faz em igrejas de pedras ou de tijolos – as de madeira, ferro e outros metais só se podem benzer. Em nenhuma igreja se pode celebrar se não tiver recebido antes a benção ou a consagração.
É desta forma que a Casa de Deus fica exorcizada, purificada e consagrada. O príncipe das trevas é dela expulso a fim de deixar a nova morada ao domínio do Príncipe da Luz, Jesus Cristo. Jacob, sabendo que dormira em lugar consagrado a Deus, exclamou tremendo: “Quão terrível é este lugar! Só pode ser a casa de Deus e a porta do céu!” (Gen 28,17)
Terrível, sim, mas só para os demônios e seus asseclas!

2.       Na casa de Deus.

Sacerdotes do Senhor e fiéis, entremos neste lugar de oração, com a mente e o coração puros! Aqui, melhor que alhures, recebe Deus as nossas homenagens e despacha as nossas petições! Indo para avizinhar-se do arbusto em chama, ouve Moisés a voz do Senhor, que lhe diz: “Descalça as sandálias, porque a terra que pisas é santa!” (Êx 3, 5)
É o mesmo Senhor que nos interpela dizendo: “Purificai o vosso coração; despi-vos do vosso amor próprio; sacudi dos pés o pó do espírito mundano; não vos deixeis atrair da curiosidade para os lugares profanos; entrai com temos e acatamento no santuário do vosso Deus; recolhei-vos, enfim, à sua presença!”
3.       A pia da água benta.
A água benta. A benção da água é uma cerimônia litúrgica antiquíssima, Tertuliano, no século III, fala da água santificada por meio da invocação de Deus.
A benção mais solene da água foi sempre a da fonte batismal, que se faz nas Vigílias da Páscoa e Pentecoste.
Nos primeiros séculos muitos do povo cristão levavam às suas casas um pouco de água benta, antes que fosse misturada com o sacro crisma, a fim de aspergir as casas e os campos. Generalizando-se este costume, tornou-se muito cedo tão grande o número de pretendentes desta água que, não bastando a que fora benta nas duas preditas solenidades, ordenou Carlos magno em seus Capitulares (Código de leis dividido em capítulos) que se benzesse a água em todos os domingos do ano antes da Missa.
O rito da benção da água está cheio de belos significados. O sacerdote toma sal e água, que primeiro exorciza, e, misturando-os em seguida, os benze recitando algumas orações.
Que significam estas cerimônias e matérias?
A tarefa própria do sal é preservar da corrupção; a da água purificar. O sacerdote os exorciza, isto é, os livra de todo o contato diabólico, coisa que a Igreja faz sempre que eleva alguma criatura ao uso santo. Mistura-os o sacerdote para que esta água consagrada tenha em si a virtude que preserva da corrupção e a que purifica. Lança-lhes a bênção ainda, com o sinal da cruz, que é a arma da defesa contra os inimigos da salvação e a fonte de toda a graça. Reza, enfim, implorando a virtude de poder, mediante esta água, expulsar o diabo das nossas almas, dos nossos corpos e das nossas casas; curar as nossas doenças e atrair sobre nós o socorro do espírito Santo.
Possui a água benta o poder de apagar os pecados veniais de todos os que dela se servem com fé em Jesus Cristo e com o arrependimento das próprias culpas.
“Lavai-me, Senhor, sempre mais das minhas iniquidades e purificai-me dos meus pecados.” (Sl 50, 4)
4.       A aspersão – caldeirinha com hissope.
A aspersão do altar e da Casa de Deus que é prescrita para certas igrejas antes de começar a Santa Missa Solene, e é louvavelmente praticada nas matrizes, oncorre belamente para instruir o povo fiel acerca de grande e importante verdade: é necessário que nós nos purifiquemos antes de assistir ao Santo sacrifício. São numerosíssimas as purificações prescritas na Lei antiga, aos sacerdotes e ao povo que se propõe a fazer suas oblações a Deus. E, todavia, quão inferiores são os sacrifícios de Israel aos dos cristãos! A nação alguma foi dado ter a divindade tão perto, como o nosso Deus nos é tão vizinho, exclama São Tomás.
Enquanto se vai procedendo à aspersão, o coro canta a antífona: “asperges me, Domine, hyssopo, et mundabor, lavabis me et super nivem dealbabor”. – Aspergi-me Senhor, com o hissope, e serei purificado; lavai-me, senhor, e serei mais alvo que a neve.
Asperge-se primeiramente o altar, para afugentar o espírito das trevas que se introduz em toda a parte, mesmo no santuário.
A seguir, o sacerdote se asperge a si mesmo; pois, se a pureza há de ser o condão de todos, é evidente que deve ser particularmente do sacerdote, que se propõe percorrer as filas dos fiéis, levando-lhes as graças da purificação.
Segue a aspersão dos fiéis. E, à medida que vai desempenhando estas cerimônias, recita a meia voz, com os seus ministros, o “Miserere”, expressando os sentimentos de penitência, que o animam a ele e aos fiéis, dispondo-se assim a receber os dons divinos.
Durante o tempo Pascal, ou melhor, desde a Páscoa a Pentecoste, o coro canta uma outra antífona, acompanhada da primeira estrofe, não já do “Miserere” mas do Salmo 117: “Confitemini Domino”: - “Vidi aquam egredientem de templo a latare dextro, aleluia! Et omnes ad quos pervenit aqua ista salvi facti sunt et dicent: aleluia, aleluia, aleluia!” – Vi a água romper do lado direito do templo, aleluia! E salvaram-se todos os que foram aspergidos com esta água; e todos dirão: aleluia, aleluia, aleluia!
Mas por que este canto durante o tempo pascal? É  que antigamente era nos dias de Páscoa e Pentecoste que se administrava o santo sacramento do Batismo aos catecúmenos. A antífona relembra os frutos salutares do sacramento da regeneração. Convida-nos a Igreja à alegria e ao recolhimento, por tão grande benefício. Entende-se, por isso que estaria fora de lugar o “Miserere”, que é próprio para dias de dor e penitência.
Se tivéssemos maior fé, de certo estaríamos sempre em tempo na igreja a fim de participar das graças da aspersão!

5.       O cantochão ou gregoriano.

O coro canta, e canta um canto todo próprio da Santa Igreja, um canto sagrado pela elevação divina dos pensamentos e melodias.
Longe de ser inferior a qualquer outro, o Canto Gregoriano supera a todos pela expressão da prece, que irrompe tão intensa quão simples da alma humana que procura a Deus.
O Canto gregoriano merece ser aqui recordado por constituir uma nota característica na santa Missa Solene, e nos demais ofícios divinos.
O nome de “cantus planus” – cantochão – orignou-se da sua simplicidade; assim, foi chamado a partir do século XIV, em oposição ao canto compassado e figurado que entrou a lhe fazer concorrência.
Chama-se ainda canto pausado por causa da sua cadência tranquila, pausada, determinada, fixa; “cantus choralis” – canto coral – por ser destinado ao coro; canto litúrgico, por ser reservado à liturgia; canto gregoriano, nome mais em uso, por ter sido formado para a Igreja pelo grande papa São Gregório Magno (+604); canto grego ou hebreu o chamaríamos também por ter estado muito em uso na antiga Grécia, nas encenações das imortais tragédias de Ésquilo, Sófocles, Eurípedes e nas sinagogas judaicas.
Algo de sua história.
A Igreja respigou seus cantos do Oriente, isto é, dos gregos e dos hebreus. Foi São Gregório que se incumbiu de corpo e alma em colecionar, aumentar, codificar o repertório musical existente. O cantochão teve intensa repercussão e extensa difusão principalmente no império dos Francos, no reinado de Pepino e Carlos Magno. Fundaram-se desde o século IX em São Galo e em Metz célebres escolas de cantochão, que ombreavam com as do “Laterano” em Roma. No século XII foi fundada outra em Chartres, dirigida pelo célebre São Fulberto. Mas quem facilitou a execução do cantochão foi o monge Guido de Arezzo no século XI.
O cantochão foi ensinado e praticado nas aulas durante toda a Idade Média, com tal qual interesse; mas, criada a polifonia no século XVI, perdeu ele a sua pureza; até que o Padre Guéranger, de imorredoura memória, incitou seus monges, no século passado (XIX), a que procedessem novamente a sábias e inteligentes pesquisas para reintroduzir e reintegrar o cantochão na sua primitiva pureza. Conhecem todos as “Melodias gregorianas segundo a tradição” do padre Pothier, publicadas em 1880, verdadeira obra prima. A edição vaticana do canto eclesiástico, publicada por São Pio X, em 1907, inspirada na de Solesmes de 1885, tornou-se oficial na Igreja toda, pelo decreto de 7 de Agosto de 1907.
O canto gregoriano é verdadeiramente oração, a oração cantada pela unidade cristã: uma voz, uma melodia, uma alma, um coração, uma única prece, poderosa como o concerto universal da Igreja inteira.
Quanta gravidade, quanta paz, quanta majestade nesse canto! Que simplicidade de mios para produzir, sem rebusca-lo, este grandioso efeito! Não há sentimento nobre da lama coletiva do povo cristão que o canto gregoriano não exprima com exatidão e calma divinas.
O “Motu proprio” do papa São Pio X (22 de Novembro de 1903), que regula a natureza e as condições do canto chão, não exclui, de forma alguma, qualquer outro gênero de música religiosa. Louva antes o uso da polifonia clássica “à lá” Palestrina nas grandes igrejas e catedrais. Não condena tão pouco o que a escola moderna pode contribuir em beleza e dignidade para o harmonioso conjunto que torne o canto verdadeira prece. Importa, porém, ter sempre ante os olhos esta regra geral que expõe nestes termos: “Uma composição musical eclesiástica é tanto mais sagrada e litúrgica, quanto mais se aproxima no movimento, na expressão e no gosto da melodia gregoriana; é tanto mais indigna da Igreja, quanto mas se aparta deste soberano modelo”.
Um sacerdote, cura de uma paróquia, não poderia imaginar o progresso que obteria na vida espiritual e religiosa de seus paroquianos, se, em suas igrejas, a oração cantada com melodias gregorianas atingisse a perfeição que se exige em sua execução. Há no cantochão um elemento essencial e importante para reformar qualquer paróquia.

6.       O incenso – Naveta.

E enquanto os ouvidos se embalam e a alma se eleva às regiões superiores com as suaves melodias do cantochão, turvam os olhos e o olfato nuvens espiraladas que ascendem do turíbulo ao alto e enchem a igreja toda.
É o incenso cuja origem, símbolo e uso despertam certo interesse, como coisa inseparável em todas as solenes funções religiosas.
O incenso é uma substancia resinosa, extraída de uma planta que cresce na Palestina e na Arábia.
A língua latina tem duas palavras para indicar essa substancia: a palavra “thus”, de um verbo grego, que significa perfumar, e a palavra “incensum”, de um verbo latino, que quer dizer queimar, donde o termo incenso. Podemos reunir os dois significados e dizer que o incenso é um perfume destinado a se consumir em honra de Deus.
O uso do incenso era conhecido entre os Gregos e Romanos, que o ofereciam aos seus deuses. Em sinal de honra, era queimado também diante de personagens ilustres. Aos poucos foi usado outrossim para incensar os bispos, depois de pessoas em geral, por fim, os próprios objetos.

7.       O turíbulo.

O turíbulo é um instrumento litúrgico, em que crepita o fogo que devorará o incenso, e donde se evolará em nuvens aromáticas. Em sua origem era o turíbulo um enorme perfumador sem correntes e repleto de carvão aceso. Um mosaico de São Vital de Ravena prova que o turíbulo já era suspenso por correntes no século VI. Era o turíbulo carregado pelos acólitos e levado “ad nares hominum” – aos narizes dos homens – que estendiam para ele as mãos e recolhiam a si o fumo suave do incenso. Há testemunhos que depõem ter sido o incenso usado, desde o século II, para perfumar as igrejas; e só mais tarde se passou a usa-lo para incensar as pessoas e as cosas. A “Peregrinatio Sylvias ad loca santa” narra que na manhã do domingo, ao canto do galo, quando o Bispo e os seus ministrantes entraram no santuário do “Atanásis” (Ressurreição) já alumiado por numerosíssimas lâmpadas, após a oração e a salmodia, e antes que o Bispo lesse o Evangelho ao povo, eram carregados turíbulos; e a “Basílica da Ressurreição ficou cheia de um suave aroma”.
O uso do incenso na liturgia é ainda hoje muito frequente. É usado quase em todas as cerimônias litúrgicas: na Missa Solene; durante os ofícios das Laudes e das Vésperas; nas bênçãos do Santíssimo; e, entre outras, nas grandes bênçãos litúrgicas do ano, das velas, da Purificação, das cinzas, e das palmas.
Falar-se-á em seu lugar da incensação do altar durante a missa solene.
Também o incenso tem o seu simbolismo. Este aroma, que a Igreja usa em todas as solenidades, deve recordar-vos continuamente que devemos ter o bom cheiro de Jesus Cristo, e rescender em todo lugar o conhecimento e o amor de nosso Deus.
Ascendamos ainda mais alto para achar um belíssimo significado do incenso! Como o discípulo predileto, em sua visão de Patmos, contemplamos no céu os turíbulos de ouro, movidos pelos Anjos, junto ao trono do Cordeiro. Estes turíbulos estavam cheios de perfumes, narra o vidente; e revela-nos também que eles não eram outra coisa que as orações dos Santos. O incenso, portanto, segundo São João, simboliza também a oração; e quando se eleva ao céu, relembra-nos como há de ser a nossa prece; isto é, pura, ardente, aromatizante com o perfume das nossas virtudes.

8.       O altar (fixo, móvel e portátil)

Fixam-se agora os olhares mais intensa e demoradamente no altar. Os maiores e mais vivos sentimentos despertam à sua vista.
Que é o altar? Quantas espécies há? Que representa?
O altar significa coisa alta, “alta res”; e é uma tábua soerguida um tanto acima do solo, em que se oferece o sacrifício.
A igreja devia ter o seu altar, altar sagrado por excelência, porque a vítima que nele se imola é um Deus.
Há duas espécies de altares: o altar fixo ou imóvel e o altar portátil ou móvel. O primeiro consta de uma grande laje de pedra (geralmente de mármore) que descansa sobre um bloco ou colunatas da mesma matéria, e forma um todo consagrado e fixo soalho. O outro não passa de uma simples laje de pedra, assaz larga para pousarem sobre ela o cálice e a hóstia; e é engastada em uma lousa de pedra ou madeira. A pedra ou altar móvel consagrado pode ser transportado de um lugar para outro sem prejuízo da consagração, o que não se dá com o altar imóvel.
Há nas igrejas geralmente mais de um altar. O altar-mor, quase sempre fixo, é o principal; é o lugar em que se efetuam de preferências as sagradas cerimônias.
Os altares laterais não eram conhecidos nos primeiros séculos; principiaram a sê-lo, quando foi introduzido o costume de rezar mais missas simultaneamente em uma e mesma igreja.
Seja qual for o material com que se constrói o complexo de peças que compõem o altar, nele não poderá faltar nunca a lousa de pedra consagrada sobre a qual possam caber pelo menos a hóstia e o cálice.
Sobre o altar está colocada a cruz com a imagem de Jesus Cristo Crucificado, a fim de recordar ao celebrante e aos fiéis a paixão de Jesus Cristo, que o sacrifício renova misticamente.
Não podem faltar duas velas acesas, uma à direita, outra à esquerda do Crucifixo, em sinal da honra e veneração que se deve tributar à adorável vítima.
São regularmente três os degraus no altar-mor, e simbolizam as virtudes teologais da fé, esperança e caridade que conduzem a Jesus Cristo.
De fato, o altar representa Jesus Cristo; e disso adverte o bispo aos subdiáconos no dia da sua ordenação. O rito da consagração dos altares é comovente:  são mais de duzentos sinais da cruz que se fazem sobre o altar durante as cerimônias de sua consagração, o que bem deve lembrar o pensamento predominante do sacrifício da cruz.
O altar é de pedra, ao menos a parte que deve receber a hóstia e o cálice; ora, a pedra é uma figura de Jesus Cristo, “pedra angular” (Ef 2, 20) da Igreja, como chama São Paulo. Cinco cruzes estão gravadas nesta pedra e figuram as cinco chagas do Salvador.
É ela purificada por numerosas bênçãos, porquanto simboliza aquele Pontífice eterno, santo, inocente, imaculado, de quem fala o Apóstolo.
Passa ainda por diversas unções executadas com o óleo dos Catecúmenos e do Sagrado Crisma. Constitui emblema daquele de quem está escrito: “O espírito do Senhor descasa sobre mim; por isso ele me ungiu” (Lc 4 ,18)
No sepulcro desta pedra jazem algumas relíquias de Santos, devendo ser, ao menos uma delas, de um mártir, para assim relembrar o piedoso costume dos primeiros séculos em que se celebravam os santos mistérios sobre o sepulcro dos mártires.
O altar representa, portanto, Jesus Cristo; é a figura de Deus que reside no meio do seu povo.
9.       O tabernáculo.
Releva fixar a atenção no tabernáculo, que ocupa o centro do altar e é encimado de uma cupulazinha ou baldaquim. Encontra-se quase so no altar-mor. Sua finalidade, desde os tempos mais remotos, é guardar as sagradas hóstias e partículas das mesmas. O baldaquim é absolutamente necessário para que se possa expor o Santíssimo no ostensório.
O tabernáculo deve ser no interior revestido ou de ouro ou de seda branca, e no exterior, ao menos a parte da frente, de um véu chamado “conopéu’.
Sobre o tabernáculo não deve haver nada, afora o crucifixo. Assim o tabernáculo como o baldaquim devem ser de obra prima, tanto quanto possível. Em alguns lugares são riquíssimos e de execução artística. Neste sentido a Igreja não poupou nunca dinheiro ou tempo.
O altar há de ser exornado de forma que mereça, tanto quanto a matéria o possa, servir de morada de Deus três vezes santo.
Concorrem de modo especial a santificar o altar as relíquias dos Santos que, em arcas preciosas, ficam expostas sobre ele. É este costume muito antigo e muito digno e justo, porque digno e justo é que no momento da sacrifício do augusto e soberano Senhor, Cabeça dos fiéis, os Santos, como membros desse corpo, estejam presentes e se associem à glória do supremo ato da Religião Cristã.
Ordena, porém, a Igreja que, mesmo assim, se devem afastar do altar todas as relíquias e relicários durante a santa missa, que se celebra no tempo do advento e da quaresma, bem como durante o ofício de réquiem e a exposição do Santíssimo Sacramento.

As toalhas.

O que prende a atenção sobre o altar são as três toalhas de linho ou cânhamo alvíssimo Uma dessas se estende por sobre a ara sagrada de forma a encobrir quase inteiramente o altar dos lados e da frente. Duas outras que se ocultam aos olhares cobrem a mesa do altar e devem cobrir ao menos a pedra sagrada. O sacerdote que celebra sem estas três toalhas peca gravemente, como também se admite outras de pano que não sejam linho ou cânhamo. Sua finalidade é óbvia: pode suceder que se entorne o santíssimo Sangue e então uma única toalha não bastaria para recolher. O uso da toalha remonta ao menos ao século IV: isto se pode provar historicamente.
   O corporal com a Bursa.
Quero aqui antecipar a referência a outros panos, que, por rigor da ordem proposta neste trabalho, deveriam ser mencionados quando ocorressem no ato da celebração da missa. Faço-o para não distrair então a atenção, que reclamam coisas mais simples.
Assim, pois, importa saber que, afora as toalhas, que cobrem o altar, são usados, durante o santo sacrifício da Missa, o corporal, a pala, o purificatório e o manutérgio.
O corporal é um pano de linho do formato de grande lenço, que o sacerdote estende sobre o altar e em que se faz a consagração das sagradas espécies. É com muita razão que assim se chama: devido ao seu contato imediato com o adorável Corpo de Cristo. Que antigamente era ele muito mais amplo, é evidente: nele se depositavam os pães e o vinho dos fiéis para serem consagrados. Daqui a opinião de que nos primeiros tempos se prestava o corporal para o mesmo fim com a toalha; ou melhor: que o corporal e a toalha fossem um e a mesma coisa. A isto nos induz, outrossim, o fato de que então se cobria a mesa do altar para o sacrifício e era descoberta logo depois de acabado.
E quem não vê reproduzido este antigo costume nas atuais cerimônias, com que se desnudam os altares nas quintas-feiras santas e se cobrem com a toalha no dia seguinte?
12.   A pala.
A pala tem a forma quadrada, e serve para cobrir o cálice. Primitivamente era uma única peça com o corporal, cujas extremidades, dobradas por sobre o cálice se prestavam para cobri-lo. Tendo-se reduzido as dimensões do corporal, foi mister achar meio com que se cobrisse o cálice; daí a origem da pala.
Segundo as instruções da sagrada Congregação dos Ritos, a parte da pala, que toca diretamente o cálice, deve ser de linho ou cânhamo; tolera-se na parte superior a seda e os recamos; mas é proibida a cor preta, mesmo qualquer emblema de morte.
13.   O purificatório.
O purificatório é um pano, de proporções de lençozinho, que serve para enxugar o cálice. Os antigos não falam dele; só é conhecido que os monges de Cluny abstergiam o cálice com uma toalha dependurada junto ao altar, do lado da epístola; mas com o andar dos tempos foi substituída por um pano, que se tornou um acessório indispensável do cálice.
14.   O manutérgio.
O manutérgio é o paninho que o público vê facilmente, quando dele usa o celebrante para enxugar os dedos depois de lavados com a água, que o acólito sobre eles entorna na parte da missa, que se chama “Lavabo”.
Assim as toalhas, como o corporal e a pala, devem ser bentas pelo próprio bispo ou por um sacerdote para isso delegado. Para o purificatório a benção é facultativa. Para o manutérgio não há benção.
Assim como a nenhum leigo é permitido tocar, sem necessidade ou sem licença especial, o corporal, a pala e o purificatório, depois de terem sido usados na santa missa, muito menos os poderão lavar antes que o sacerdote ou o diácono e subdiácono os haja lavado primeiro.
Estas peças tem também seu simbolismo e sobretudo por serem de linho: simbolizam os lenços de linho, em que José de Arimatéia envolveu o Corpo do Senhor; e exercem realmente em cada santa missa a mesma função de receber em si o Corpo adorável de Jesus imolado sobre os nossos altares.
A alvura desses panos nos ensina que, se as nossas almas desejam receber dignamente o “Pão que faz viver eternamente” (Jo 6, 59), deve, a seu exemplo, desenrolar-se e apresentar-se imaculadas aos olhos do Cordeiro divino.
15.   O cálice com o véu.
Resta mencionar o cálice, por todos conhecido, de uso primordial entre todos os povos, e usado por Cristo na última ceia.
Dos vasos sagrados do templo de Jerusalém fazem menção as sagradas Escrituras. Também é notório o castigo fulminado aos profanadores dos vasos sagrados no banquete de Nabucodonosor.
Em que reverência se devem ter os cálices sagrados da Nova Lei, não é de difícil inteligência para os homens de fé: receptáculos são do Sangue divino, derramado em remissão dos pecados.
Ordena a Igreja que assim os cálices como os cibórios, em que se consagram e guardam as hóstias para distribuir aos fiéis, devem ser por dentro dourados. No mais, o material usado para o seu fabrico há de ser prata, ouro ou outro que não se oxide ou absorva líquidos.
Do mesmo material deve ser a patena, que se destina a receber a hóstia. Simboliza o sepulcro de Cristo.
16.   A Vela com castiçal.
Não se poderá passar em silêncio a vela na liturgia. Sua história e seu simbolismo são de real interesse.
Todas as velas que crepitam no altar ou em volta dele devem ser de cera que as abelhas fabricaram: de cera bruta, tal qual é fabricada pelas abelhas, quando houver missa de “Réquiem” e se realizarem as funções comemorativas da paixão e morte de Jesus Cristo durante a semana santa; - de cera refinada e branca para todas as demais funções litúrgicas.
Velas, portanto, feitas de qualquer outro material (estearina, sebo, etc.) são rigorosamente proibidas no altar, a não ser que devam servir para ornamentar e alumiar a igreja ou para fazer luz ao celebrante que reza a santa missa.
É multíplice o uso da vela nas cerimônias litúrgicas; mas limitemo-nos ao uso que dela se faz durante o santo sacrifício da missa.
O número de velas acessas no altar durante a santa missa varia, segundo varia a solenidade da mesma. Para uma missa simples devem ser duas. É permitida uma terceira, que se deverá acender ao “Sanctus” e apagar depois da “Communio”. Seu lugar será o lado da “Epístola”. Mas é uso que tende a desaparecer de todo. Para uma missa cantada ou solene, se deverão acender seis velas, três de cada lado do tabernáculo; mas, sendo missa pontifical, isto é, em que o bispo diocese pontifica pessoalmente, ajuntar-se-á mais uma sétima.
A Igreja simboliza desta forma os sete dons que o espírito santo dispensou, no dia da consagração episcopal, àquele que recebeu então a plenitude do sacerdócio com o poder de conferir os sete Sacramentos.
Observe-se ainda que nas Missas solenes é o diácono que canta o evangelho do dia, e que nesta ocasião os dois acólitos empunham castiçais com velas acesas e se postam à esquerda e à direita do subdiácono, que segura o missal.
Ora, antigamente se costumava, em algumas igrejas da França, carregar nestas ocasiões um número variado de círios, segundo a solenidade da festa.
Daqui o designarem-se as tais festas: festas de três, de cinco e de sete círios ou castiçais.
Se indagamos agora a significação da vela de cera, devemos dizer que simboliza Jesus Cristo, chamado a “Luz do mundo” (Jo 8, 12); a “Luz que dissipa as trevas” (Jo 1, 5)
A vela alumia, aquece; Jesus Cristo dissipa as trevas da nossa ignorância e acende em nossos corações o verdadeiro amor.
Esta luz eterna, que é o Verbo divino, encarnou-se um dia; e a vela recorda este mistério: “A cera, produzida pelas abelhas virgens, é o símbolo da carne de Cristo formada no seio da Virgem Maria; o pavio é o símbolo de sua alma; a chama, o de sua divindade”. É Santo Anselmo que assim se exprime.
Quando, pois, vemos consumir-se sobre os nossos altares esta cera, recordemos aquele de quem ela é símbolo. Saibamos contemplar nestes lampejos os raios daquele Jesus, cuja face resplandece nos céus como o sol em toda a sua pujança; re-animemos a nossa fé no que vem imolar-se sobre o altar da nossa terra, naquele Cordeiro sempre imolado da cidade celeste, de que é a Luz.
Esforcemo-nos por ser e por caminhar como os filhos da luz, correspondendo ao chamamento que nos dirige a vela acesa!

*   *   *

Grandioso e imponente aparato, na verdade! E, entretanto, o que ficou dito não passa de remotíssima preparação do que fica por dizer. Mas, posto que vaga, é já sedutora a luz da aurora; assim, posto que pouco, foi dito muito, bastante para formar uma ideia do que virá de portas adentro deste majestoso templo da liturgia cristã.
O sacerdote ao pé do Altar!... O turbilhão de idéias e de sentimentos, se não o esmagam nessa hora, é só devido à graça do Alto que o sustenta.
Pobre mortal, atende, escuta, pondera e contempla a altura a que foste elevado!
“Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”, exclama a Virgem, Mãe de Deus!
É um “Alter Christus” – Outro Cristo! – Não é ele, mas é Cristo que se revestiu dele. Cristo, o Supremo Sacerdote, o Sacerdote por excelência, não se designou de o eleger entre milhões para por ele exercer o sacerdócio, oferecer ao Pai Eterno o sacrifício da Nova Aliança.
*   *   *
Prossigamos agora passo a passo na explanação das orações e cerimônias da santa missa!


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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A Santa Missa na História e na Mística (TU ES SACERDOS IN AETERNUM)





TU ES SACERDOS IN AETERNUM

1.       O grande passo para o sacerdócio.
2.       Alter Chistus.
3.       O sacrifício.
4.       O sacrifício da Nova Aliança.
5.       O Santo Sacrifício da Missa.
6.       A eucaristia-sacramento.

1.       O grande passo para o sacerdócio.
O grande passo. Muitos e importante passos tem dado o sacerdote: passos para Deus.
O primeiro transportou-o para além do abismo, que separa o homem não batizado de Deus: foi transformado em templo do Espírito Santo; tornou-se criatura grata a Deus, porque a ele consagrada e por ele santificada: sobre ele pousaram os olhos divinos com agrado e complacência...

*  *  *

E os dias e os anos se sucediam rápidos. Deus olhava-o com agrado. Dois corações se amavam: Jesus e ele se uniram. Jesus deu-se todo a ele na sagrada comunhão. Foi o segundo importante passo para Deus.
Não já pelos padrinhos; mas por si mesmo renunciou no dia da primeira comunhão ao demônio, às suas honras, pompas e glórias. Rejubilaram os céus...

*  *  *

E os dias e os anos se sucediam ainda mais rápidos. Deus usava de deferências amorosas para com ele. Abria-lhe com carinho a estrada dos seus passos. Mandava seu anjo para apartar do caminho as pedras que o podiam fazer tropeçar e lhe magoar os pés.
Mandava sua Mãe para lhe estender a mão nos dias de trevas: houve um tempo de trevas no caminho do Senhor e de luzes no caminho de lúcifer. Foi o tempo em que se lhe abriram os olhos; e a Estrela do mar foi o seu farol norteador. Em dias de fraqueza, mandava seu filho para alimentá-lo do Pão dos fortes. Deus pôs seus olhos amorosos nele...

*  *  *

Saiu forte da luta. Por que se não abalançaria a um novo importante passo para Deus? Fê-lo. União mais íntima não perfazem os laços do amor, do que a que criou uma alma com deus, pela emissão dos santos votos.
Desta vez não só renunciou ao demônio e suas obras, como fez no batismo e na primeira santa comunhão; renunciou, outrossim, ao mundo e à carne, com o deslumbrante cortejo de bens e gozos legítimos que o mundo pode oferecer.
Deus o amou, e ele amou a Deus.
Jesus amou-o, e ele amou a Jesus.
A Virgem amou-o, e ele amou a Virgem.
A Corte celeste amou-o, e ele amou a Corte celeste...
Três grandes e importantes passos esses que deu! Três grandes venturas, na verdade!
Mas o quarto, “O Grande Passo”, vence em importância e em ventura os três.
Com o primeiro travou relações de amizade com Deus; com o segundo estreitou as relações de amizade a ponto de familiarizar-se com Deus; com o terceiro, enfim, passou da familiaridade à consociabilidade. Celebrou núpcias divinas. Esposou o Esposo divino. E seria possível um quarto passo para Deus nesse mundo?
Poder-se-ia idear um consorcio mais íntimo com Deus do que o de esposos?
Deus o pode! E Deus ideou-o. O consórcio que une sacerdote a Deus é tal qual jamais criatura alguma houvera sonhado.
                E ele deu o passo, o quarto grande passo; o passo que o elevou tão perto de Deus, que por pouco, não se tornou um outro Deus.
                É Sacerdote do Altíssimo, Ministro de deus, Levita do Senhor, um “Alter Christus” – um outro Cristo – o Ungido do Senhor.
                Eis o grande passo!

*  *  *

                Ele o confidente íntimo de Deus! Ele chamado por Deus não servo, mas amigo! “Já não vos digo servos, mas amigos” (Jo 15, 15).
                Todo o poder lhe foi dado no céu e na terra. O que ele ligar na terra será ligado no céu; o que ele desligar na terra será desligado no céu.
                Jesus seu amigo! Ele é um outro Cristo; Cristo é um outro ele.
                Identificam-se os seus ideais, as aspirações e os seus poderes sobre Deus pai e sobre os homens, seus irmãos. Manda a Deus que desça sobre o altar do sacrifício; e Deus, obedecendo desce.

*  *  *

Oh! O grande passo! Ó passo venturoso!
Já está dado. O caráter sacerdotal está indelevelmente impresso em sua alma!
“Tu es sacerdos in aeternum”.
Passo, em verdade, grande e de grandes responsabilidades!
Mas “alea jacta est” – o dado está lançado. – Já não há de recuar. E por que haveria de recuar? Amedrontam-no acaso as responsabilidades? Assoberbam-no as dificuldades? É-lhe nimiamente pesada a cruz?
Mas não se tem assentado à direita de Jesus, só quando se persuadiu que poderia e saberia beber do cálice por que bebeu Jesus?
E não se persuadiu disso só confiado naquele que sabe e pode e quer confortá-lo? Tudo pode naquele que o conforta!

2. Alter Christus.
Um outro Cristo! Um outro ungido do Senhor! Um outro Eleito de Deus – Já não vos direi servos, mas amigos meus! – Um outro Mediador, enfim, entre Deus e o homem! – É a escada de Jacob, por que descem e sobem os anjos da Graça Divina!
Chama-se Sacerdote do Altíssimo! – Tu sacerdos in aeternum! – É quem dispensa as coisas sagradas; quem se apresenta como intermediário entre Deus e os homens: entre Deus, de quem recebe, e os homens a quem distribui; entre Deus a quem oferece as dádivas, e os homens, que o incubem da tarefa de as dispensar a eles.
Chama-se um outro Cristo; porque é em terra um seu verdadeiro substituto. Substitui a Cristo como verdadeiro Mediador.
Se São Paulo diz que há um único e verdadeiro Mediador que é Cristo, o qual se entregou a si mesmo à morte para resgatar o gênero humano e satisfazer ao Pai pelos homens, diz com isso que Cristo é, outrossim, o único Sacerdote. E único Sacerdote Ele é na verdade! Mas, doutro lado, ensina a fé que, como Ministro do Altar, é o padre verdadeiramente mediador, verdadeiramente sacerdote. Como se entenderá isto? Do modo mais simples. Considerado como pessoa privada, não é senão um homem como os mais; mas, como Ministro de Deus, representa Jesus Cristo mesmo, de quem recebe todo o poder, autoridade e eficácia de sua mediação.
Duplo poder lhe é conferido: um que exerce sobre o Corpo e sangue de Jesus Cristo; outro que exerce sobre o seu corpo místico, que é a Igreja ou a reunião dos fiéis. O primeiro torna-o um sacrificador; o segundo, um padre, um doutor, um médico um juiz. Mas tudo isto, todas estas funções exerce-as só em nome de Cristo.
Cristo, pois, é o único Mediador entre deus e os homens, e se a fé diz que o Padre o é também, só o é porque Cristo está nele. Eis por que é um – Alter Christus! – um outro Cristo no pleno rigor da palavra!

*  *  *

Agora, sim, nos damos conta da solenidade das cerimônias litúrgicas com que o Pontífice do Senhor consagrou Sacerdote ao neo-presbítero!
Escolheu ele a hora mais solene, a do santo sacrifício da Missa. Antes de o ordenar, interrogou a todos presentes, mais uma vez, depois de o haver feito já antes com extremo cuidado, se eles o consideravam digno, tanto quanto o possa ser uma criatura, para receber a ordem sacerdotal.
Não havendo quem se lhe opunha, o Consagrante dirige-se ao Consagrado. Relembra-lhe, com força e unção, a grandeza dos deveres, de que o sacerdote assume a responsabilidade. Invoca a adorável Trindade, Maria, Mãe de Deus, os Apóstolos, os Mártires, os confessores, as Virgens, toda a corte celeste, para que lhe venham em auxílio, dizendo: “Senhor, dignai-vos abençoar, santificar e consagrar o vosso eleito!”
Avança o consagrado para o Altar. O Bispo, em silêncio, põe-lhe sobre a cabeça as mãos. Fazem depois o mesmo os sacerdotes presentes ao ato, um após o outro; e estendem sobre ele a mão direita. Momento solene! Momento em que se imprime na alma do novel levita o caráter indelével de sacerdote; é a graça sacramental, que o Bispo lhe obtém pela recitação das palavras do sacramento da Ordem! É agora que o Espírito do Senhor vem repousar sobre sua cabeça. Afigura-se-lhe, então, que se abrem os céus, com outrora se abriram sobre as águas do Jordão, e que se houve a voz do Pai a dar testemunho deste seu novo Cristo: “Este é meu filho amado, em quem pus as minhas complacências”. E, de feito, Jesus é quem neste momento renasceu nele! Apraz a cristo perpetuar sua estadia entre os homens, nascendo sempre de novo em cada neo-sacerdote.
Sente-se o recém-ordenado sacerdote do Altíssimo – Tu es sacerdos in aeternum. – Por tal o reconhece o Consagrante; passa por isso a revesti-lo dos hábitos sacerdotais: cruza-lhe a estola por sobre o peito, símbolo comovente da cruz que pesou nos ombros do Sacerdote eterno, Jesus Cristo, no dia do seu sacrifício; põe-lhe a casula, símbolo do amor; unge-lhe as palmas das mãos com o óleo dos catecúmenos, em forma transversal, do polegar de uma mão ao índice de outra, dizendo: “Senhor, dignais-Vos consagrar e santificar estas mãos com a unção e com a nossa benção, para que tudo quanto elas abençoarem seja abençoado, e tudo quanto consagrarem seja consagrado e santificado em nome de N.S.J.C.”.
Passa, em seguida, a entregar-lhe os instrumentos. Faz-lhe tocar o cálice que contém água e vinho, e a patena com a hóstia dizendo: “Recebe o poder de oferecer o sacrifício a Deus; e de celebrar a Missa pelos vivos e defuntos, em nome do Senhor”.
E passa imediatamente, acompanhando o Bispo, a celebrar a sua primeira santa Missa. Depois da comunhão, impõe-lhe o consagrante novamente a mão na cabeça, dizendo: “Recebe o Espírito Santo: a quem perdoardes os pecados, ser-lhe-ão perdoados; a quem os retiveres, ser-lhe-ão retidos.” Poder inaudito! E sente objetar-lhe, como outrora Jesus foi aparteado pelos escribas: “Mas quem pode perdoar os peados, senão Deus?” (Mac 2, 7). De pleno acordo! É preciso ser Deus para poder absolver um pecador; mas por isso mesmo é chamado na sagrada Escritura: “Vós sois deuses”.
É o próprio Deus que assim apelida aos Levitas da Antiga Lei, em vista do poder extraordinário de que foram revestidos.
Na verdade, é um Deus quanto ao poder de perdoar os pecados ou de os reter; porque está nele o poder de Jesus, o poder de Deus. – É um outro Cristo. – É o depositário do divino poder, mediador entre deus e os homens, imagem visível do Grande Pastor de Ovelhas.

*  *  *

Oh! Não fora a graça da fé, meu Deus, nunca acreditaria em tal! Não fora a graça do Vosso amor, nunca homem algum se abalançara a tanto! O sacerdote um outro Cristo?! Um Deus! Compreendo que vós, Jesus, mandeis ao homem que seja perfeito como vosso Pai no céu é perfeito; mandais que aprenda de vós a humildade e vos imite em tudo, porque sois o Deus feito homem e o neo-presbítero, um homem feito Deus: - Alter Christus!

3.  O Sacrifício.
É chegado o momento soleníssimo, em que o neo-sacerdote sobe ao altar para oferecer o sacrossanto sacrifício da cruz.
Que é um sacrifício? O sacrifício verdadeiro e propriamente dito, segundo no-lo define o próprio Espírito Santo pela boca de Moisés e São Paulo, é a oblação de coisa sensível com a sua destruição quer parcial, quer total, quer seja física (como se dá com o holocausto) quer mística, (como se dá com a libação e efusão de vinho ou água) efetuada por um ministro legítimo e feita só a Deus, com o fim de manifestar os sentimentos internos, com que o homem deve reconhecer o seu supremo domínio. Desde que há memória do homem decaído, não faltaram sacrifícios entre os povos.
Passando pelos mais, limito-me a apontar o de Melquisedec, narrado nas Escrituras, e que tem, por isso mesmo, o testemunho infalível do Espírito Santo, e que é muito próprio para o nosso caso.
Melquisedec ofereceu a Deus o sacrifício de pão e vinho, símbolo perfeitíssimo do sacrifício da Nova Aliança, em que o pão, pelo poder das palavras da consagração, se transubstancia em Corpo de Cristo, e o vinho em Sangue de Cristo. Recordo ainda o sacrifício da lei mosaica, que é considerado debaixo de quatro pontos de vista, devido aos quatro diversos fins: O sacrifício latrêutico, que visa direta e exclusivamente, segundo a intenção do sacrificante, o fim de reconhecer por ele o supremo e inalienável domínio de Deus sobre tudo o que existe. Por isso, neste sacrifício há destruição total da oferta ou vítima, há destruição física; e é por isso dito holocausto. – O sacrifício eucarístico, que visa diretamente o fim de render graças a Deus pelos favores e benefícios outorgados; e chama-se “hóstia pacífica”. – O impetratório, que visa a obtenção de novas graças e novos benefícios. – O propiciatório, que visa aplacar a Deus, e por isso é chamado também de satisfatório, cujo escopo é oferecer a Deus vítimas em expiação dos pecados, em satisfação das penas devidas pelos pecados, e chama-se “hóstia pro delicto” e “hóstia pro peccatis”.
Do dito se colhe que o sacrifício tem como fim reconhecer a perfeição infinita do ser Divino e do seu soberano domínio sobre quanto veio à existência por seu infinito poder. O reconhecimento do Ser perfeitíssimo, que é Deus, é uma Eucaristia ou agradecimento no pleno rigor da significação do termo; ela abrange em sua verdadeira acepção as idéias da adoração, em virtude da qual o homem se aniquila na presença da divina Majestade; da gratidão, que leva o homem a exaltar os benefícios de Deus; da imperfeição, que induz o homem a implorar as graças de que necessita; da expiação, que faz com que se obtenha a supressão da justa ira do Senhor, prestes a fulminar sobre o homem o seu tremendo castigo.
Estes são e devem ser os quatro fins que visa todo e qualquer sacrifício que se oferece à Divindade, os quais se podem reunir em um púnico, que é o de unir intimamente o homem a Deus; e chama-se a eucaristia-sacrifício.

4. O sacrifício da Nova Aliança.
Exposta a noção geral do sacrifício, qual é entendido por todas as religiões verdadeiras e falsas, releva acentuar mais a significação do sacrifício da Nova Lei, o sacrifício da religião revelada, sacrifício da religião cristã, o único aceitável a Deus, sendo o único prescrito por ele próprio. Abrogando Deus a religião mosaica, aboliu o sacrifício que nela fora ordenado; e fundando uma religião diversa da de Moisés, estabeleceu um sacrifício diferente do de Moisés.
Cristo, o Filho de Deus, veio ao mundo para fazer a vontade do Pai. Depois de haver aperfeiçoado a lei de Moisés e modificando a religião judaica, instituiu um sacrifício digno da lei e da religião divinamente acabadas: é o sacrifício de um homem-Deus.
A natureza humana, unida hipostaticamente à Pessoa divina, isto é, ao verbo, segunda Pessoa da santíssima Trindade, não pratica ação que não se deva atribuir à Pessoa; ora, em Jesus há uma única Pessoa, e esta é divina; Jesus é Deus, e o que Deus faz é ato de valor infinito e, se bem que o sacrifício seja de natureza humana, todavia o sacrifício de Jesus é ação que se deve atribuir à Pessoa divina, ao Verbo; mas a ação do Verbo é infinita, logo, infinito é o sacrifício; logo, o sacrifício do homem-Deus é de valor infinito. Portanto, de todos os sacrifícios é o sacrifício de cristo, o Homem-Deus, que de um modo mais perfeito preenche os quatro fins acima expostos; porque, considerada a dignidade da vítima imolada em holocausto, que vítima houve jamais ou haverá que supere em dignidade ou excelência a Vítima divina, Jesus Cristo? O sacrifício de Cristo, embora um único, valeu infinitamente mais do que os milhões e bilhões de vítimas puramente humanas ou irracionais de todos os tempos.
Esta é a verdade que a Igreja definiu nos Concílios Efesino e Tridentino, quando disse que Cristo se ofereceu a Deus Pai sobre o altar da cruz, para lá efetuar a nossa eterna redenção.
Sim, a morte de Cristo na cruz foi um verdadeiro sacrifício. Em Cristo temos o sacerdote constituído por Deus desde toda a eternidade e por isso legítimo. Em Cristo temos a vítima sensível, verdadeira e realmente imolada na cruz. Temos portanto, os dois requisitos essenciais para todo o sacrifício: o sacerdote e a vítima. (N.B. Não é requisito essencial que seja o sacerdote quem mate a vítima, mas sim quem a ofereça). Em Cristo temos outrossim perfeitamente verificados os quatro fins do sacrifício: Cristo por sua morte na cruz reconhece o supremo domínio de Deus, aplaca a divina majestade, expia as penas dos pecados, impetra novas bênçãos do alto e rende graças a Deus pelos benefícios recebidos.

5. O Santo Sacrifício da Missa.
Enquanto houver homens sobre a terra é mister que haja sacrifícios; e isto por força dos fins que visa toda sacrifício: o reconhecimento da soberania absoluta de Deus, o rendimento de graças ao Senhor pelos benefícios recebidos, a impetração de novos favores divinos e o aplacamento da ira divina, ofendida pelos pecados, e a satisfação das penas merecidas.
Ora, que outro sacrifício poderia ser mais grato a Deus e preencher de modo mais perfeito a finalidade do sacrifício do que o sacrifício do Homem-Deus?
Eis aqui por que, fundando Cristo sua religião sobre a terra, lhe deu um novo sacrifício, que é a continuação do sacrifício oferecido outrora, cruentamente, sobre o Calvário: o sacrifício da Missa!
O sacrifício da Missa é um verdadeiro sacrifício; porque é, primeiro, um ato público efetuado segundo um rito determinado e por ministros para isso especificamente deputados. Este rito e estes ministros foram instituídos por Deus mesmo, que aboliu o rito e os mistérios da Lei Antiga. Por isto, de todos os sacrifícios, é o da santa Missa o único aceitável a Deus, porquanto é ele a renovação e a aplicação daquele do Calvário, do qual tem a plena eficácia.
É, em segundo lugar, verdadeiro sacrifício, porque se oferece na Missa uma coisa sensível, que é o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, debaixo das espécies de pão e vinho, o mesmo Corpo e o mesmo Sangue que um dia ficou imolado no alto do Calvário, oferecido pelo próprio Sumo Sacerdote, Jesus Cristo. Se há uma diferença entre os dois, esta consiste em que o Sacrifício do Calvário foi cruento; em que no Calvário Cristo se ofereceu pessoalmente sem ministros, enquanto nos nossos altares se oferece mediante o ministério dos sacerdotes; em que no Calvário o sacrifício nos mereceu a redenção, e nos nossos altares, a aplicação dos frutos dela.
Portanto, não há motivo algum para negar que o Sacrifício da Missa seja verdadeiro sacrifício: temos nela o sacerdote e temos a vítima.

6.       A Eucaristia – Sacramento.
A respeito do sacrifício seria incompleto se passássemos em silêncio um elemento, não digo essencial, mais integral de todo o sacrifício: A Eucaristia-Sacramento.
Parece provado que a todos os sacrifícios, assim pagãos como judaicos, estava anexa a ideia de que, para ser completo o sacrifício, era mister unir-se à divindade com a participação efetiva e real das vítimas: isto é, com a comunhão, como diríamos hoje, em que se come da vítima.
Fosse como fosse a ideia dos pagãos e judeus a respeito da comunhão, o certo é que o sacrifício da Missa, não só é Eucaristia-Sacrifício, senão também Eucaristia-sacramento. Sim, no sacrifício da Missa a criatura não só se dá inteiramente a Deus em holocausto, mas é por Deus convidada a assentar-se à sua mesa celeste, sobre a qual ele oferece a comer e a beber aquela mesma vítima, a carne e o sangue preciosíssimos de Jesus.
Ó alimento divinizado pela consagração! Alimento divino! O Corpo e o Sangue unidos à alma e à divindade de nosso Senhor Jesus Cristo! Alimento único; pois só ele tem a virtude de operar a fusão de Deus com o homem, união que proporciona à criatura bens inúmeros, que a transforma e a torna sempre mais semelhante ao seu Criador.
Que realidade consoladora! Pela Eucaristia-Sacramento ou pela comunhão que devo fazer, sempre que celebro, uno-me de modo admirável a Deus; nutro-me com a substância divina; sou de certa maneira divinizado; preparo-me insensivelmente para a páscoa da vida eterna.

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Quer-me agora parecer que não é necessário insistir ainda no valor do santo sacrifício da Missa. É mais que evidente. Aqui temos um Deus que se imola, um Deus que é imolado. Que cúmulo de mistérios!
Entretanto, importa relembrar que o sacrifício da Missa é de valor infinito, para que ninguém se escuse de não ter encontrado o suficiente para si. É um mar inexaurível de graças e benefícios. Só quem bebe deste mar agrada a Deus; só quem assiste à Missa presta a Deus o sacrifício por ele aceito. Afora o sacrifício da Missa, nenhum outro pode ser agradável a Deus e proveitoso ao homem e tão proveitoso, que santos do céu participam da sua glória, as almas do purgatório e os vivos da terra gozam superabundantemente dos seus benefícios. É que o sacrifício da Missa constitui o único holocausto verdadeiramente digno do Senhor, em que se sacrifica o Cristo sempre vivo para interceder em nosso favor. Aqui, como sobre a cruz, o Cristo se constitui o vínculo vivo que nos une a deus.
No santo sacrifício da Missa temos o ato em volta do qual gravita e dele se irradia o próprio sacrifício da Redenção. Sim, na santa Missa, aquele mesmo sacrifício, oferecido um dia sobre o Calvário, assume a condição como de coisa que ocupa a circunferência, como de um satélite gravitando em volta do sol, como de uma fonte viva que deságua no oceano. A santa Missa é o entro, é o sol e é o oceano onde se concentra o próprio sacrifício do Calvário que é eterno, e ao mesmo tempo perpetuado no tempo, no céu perante Deus e na terra entre os homens; é o mistério da consumação de todos os desígnios de Deus, realizado um dia e renovado por todos os séculos até ao fim do mundo.

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É tendo presente o exposto que o sacerdote deve oferecer o tremendo ato religioso. Oxalá se aproximasse sempre para o futuro da ara sagrada do Senhor com estas disposições de alma que o dominam ao presente!
Quem dera, pudesse comunicar e, comunicadas, conservar estas mesmas santas e invejáveis disposições nas almas de todos os assistentes ao santo e inefável sacrifício da Missa! Quisera, sim, que todos os cristãos se persuadissem de vez por todas ser o santo sacrifício da Missa o ato de religião mais necessário!



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Introdução.